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De Melbourne, Amália Grimaldi. 2016

Siracusa, berço de filósofos emblemáticos. Uma beleza indiscutível em tudo aquilo que representa a história de antepassados, gregos e romanos –  berço do grande filósofo Arquimedes.

Mês de agosto. Verão europeu. Naquela minha venturosa viagem pela ilha siciliana, além de fatos imortalizados da História Clássica mediterrânea, filosoficamente, muito aprendi com situações e exemplos de vida de outros mortais.  Lembro-me muito bem de quando, debruçada ao parapeito da muralha de proteção da alameda de cafés e restaurantes de Siracusa, (sempre lotados), contemplava eu perdidamente, um vasto Mediterrâneo revolto, contido e zangado.

Mediterrâneo e seus profundos blues. Absorta, nem sentia o tempo passar. Envolta em momentânea regressão lilás, consumia-me em pensamentos intimistas. Pasmada, varria a imensidão daquele mar ao olhar, enquanto jatos comerciais ordenados cruzavam traçado espaço. Na verdade procurava eu juntar o limite de céu ornamental, de gordos alvos nimbos, ao azul infinito horizonte linear, enquanto gaivotas afoitas, em voos rasantes, deixavam penugens brancas suspensas no ar.

O vasto painel de casas seculares da antiga cidade de Siracusa, belo e decadente, lembrava-me um frágil biscoito de massa folhada, quando ao leve toque dos dedos logo a desfazer-se em farelos.

Lua minguante e maré baixa seria oportuna ocasião para intervenção naquela muralha que, permanentemente, erodia-se aqui e ali, ao furor incontido das marés de sizígia. Hábeis pedreiros no manejo da pá, verdadeiros mestres sicilianos da argamassa, refaziam o estrago causado pela volúpia das intempéries e preenchiam os muitos buracos na muralha. Calados, talvez em pensamentos, me pareciam mergulhados em seus desejos – a consciência em oração. Talvez.

Ventava muito. Aqueles homens usavam gorros de lã grossa, vestiam casaco em estridente amarelo, uma espécie de impermeável plástico lustroso. Seria roupa de proteção obrigatória a serviço da prefeitura e do conselho siracusano. No manejo da pá seguiam atiçando com maestria a argamassa fresca. Imaginei-os, tal e qual, executando melodias vibrantes, em violinos indispensáveis. Era como se fossem destaques de primeira fila, da importante orquestra à qual pertenciam. Desafino, nem pensar! Um movimento brusco, e pronto. Seria a queda inevitável.

Segundo as leis da probabilidade, um ou outro, um dia seria fatalmente abatido. Seria nocauteado sem dó nem piedade naquele ringue duro, ausente de lonas compensadoras. A agudeza de pedras ameaçadoras parecia atrair ao imaginável provável desastre. Ora encobertas pelas águas da maré cheia, como se fossem agulhas ameaçadoras, as rochas pontudas sobressaiam-se.

O cenário seria tal e qual o de uma pintura renascentista. Esguias e estreitas, eram as inimagináveis e compridas escadas de caibros finos onde se apoiavam os trabalhadores,  não mostravam confiabilidade. Eram muitas delas. Lado a lado, suportavam a argúcia e a experiência daqueles homens de encontro à imensa muralha. Notei que se equilibravam obedecendo aos princípios de leis da física gravitacional – apenas com o peso de seus corpos. Compensavam na verticalidade com a evidente inclinação angular da escada.  Na verdade executavam um trabalho que requereria muita experiência. E, acima de tudo, ausência de medos frente ao temperamental Mediterrâneo.

Mas, ausente mesmo, seriam os traços de felicidade no rosto daqueles homens. Cada um me pareceu mergulhado no seu próprio conflito.  Aliás, o que poderia ser mais próximo de nós, senão o interior da nossa própria caverna? Na verdade, nesse efêmero existencial, somos apenas dóceis participantes. Manter-se à superfície de uma árdua sobrevivência significa navegar por tormentosas águas – da inveja e da ambição. Pedras, pelos caminhos de vida, são muitas delas, e teremos que afastá-las se quisermos prosseguir. Ponderava eu.

Rugia um monstro contido. Ameaçava a integridade do belo portal. Sem dó nem piedade, ondas gigantes de um mar de temperamento adverso, castigavam as paredes da amurada de contenção. Mais uma vez, via-se o homem na sua luta ingênua, tentando contrapor-se às forças da natureza imbatível. Lembrava-me então de Sultão, acorrentado junto à cerca do quintal, esse amigo guardião companheiro de infância, contido, rosnava furioso. Exibia enormes presas.  Mostrava do que seria capaz.

A grande muralha protetora pareceu-me acompanhar altas intenções. Mas, a cidadela defendida, esta me parecia esconder satisfação. É que, a dura argamassa por vezes, também pode sepultar desejos, aqueles mais suspirados. Ah, o Ser, e a sua solidão! Nesse imenso e inexorável universal intervalo, entre o nascer e o morrer, dá-se o homem. (Sábia fala de conhecido filósofo). É que, criaturas pensantes, às vezes se inventam. No remoer de pensamentos poderemos até nos vestir de personagem oportuno.

 *Publicado na  edição impressa nº 595, do jornal Valença Agora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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