Eduardo Pereira - matutando

Eduardo Pereira

Historiador, jurista e psicanalista em formação.

 

Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas. (Karl Marx e Friedrich Engels)

Segundo o Professor Doutor Leandro Karnal, quando se diz: “no meu tempo era assim”, é sinal que o indivíduo está ficando velho. Entretanto, o intelectual mesmo no seu dia-a-dia, não se furta às análises sobre o seu entorno e algumas vezes acaba fazendo comparações, mesmo sabendo que neutralidade, relativização, objetividade, etc., são pilares da intelectualidade.

Pois bem, tenho observado que as pessoas na pequena cidade de Ituberá, raramente se cumprimentam nas ruas, principalmente os mais jovens. Estive recentemente com meu amigo Márcio Raimundo, na Rua Getúlio Vargas, numa “boca de noite”, parados na calçada em frente a uma escola, a conversarmos e, por ali passaram dezenas, e porque não dizer centenas de estudantes, muitos dos quais, ao passarem entre nós dois, tropeçaram  tanto em mim quanto em meu amigo, sem sequer nos dar uma “boa noite”, sem ao menos nos solicitarem licença, e muito pior, sem nos pedirem desculpas por nos atropelarem com seus corpos. (por nossa sorte essas pessoas não estavam motorizadas).

Indaguei a meu interlocutor: “Márcio como Ituberá está mudada, ou será mesmo que essas pessoas não falaram conosco por puro racismo?” Companheiro Márcio que é um cidadão muito bem instruído e um respeitadomilitante das causas sociais, de imediato me respondeu: “é um misto de tudo, racismo, falta de bons princípios e ausência de referências positivas”.

Prezado leitor(a), peço sua permissão para recordar-me da minha infância, e continuar a escrever o presente texto na primeira pessoa do singular. Pois bem,principalmente no final da década de 1960 e na década de 1970, vivi  entre a Fazenda Maria do Carmo, região do Maruim, então Distrito de Igrapiúna,  Município de Camamu – Bahia, de propriedade do meu pai e a nossa casa na região suburbana da Vila de Itajaí, ou Arraial da Fazenda Velha, como minha avó chamava a localidade.

No Maruim, se pedia a bênção aos mais velhos, dia de Sexta Feira Santa, a bênção era pedida de joelhos; os homens eram tratados por “seu” e as mulheres por “dona” e se nutria um verdadeiro respeito pelos mais velhos. Os que tinham um ofício, como por exemplo, eram carpinteiros, eram tratados por mestre, a exemplo do Mestre Irênio, do mestre Isídio, dentre outros. Assim, tínhamos: “seu” André Santos, “seu” Bié, “seu” Antônio Pereira, e outros tantos. As mulheres, eram a “dona” Jove, “dona” Maria de André Santo, “dona” Detinha, “dona” Alice, “dona” Luisinha, etc.

Dessa forma, por exemplo ao encontrar “seu” Bié no caminho, o rapaz ou o menino diria: “a bença a seu” Bié e este respondia: “Deus lhe abençoe meu filho”. O mesmo com “dona” Jove e demais pessoas. Coitado de quem faltasse como respeito com a um mais velho. Já na Fazenda Velha, acredito por se estar mais perto da cidade, não era costume do lugar, pedir bênção, a não ser aos mais acatados. Recordo-me que eu somente pedia a bênção a “seu” André Tiúba e a dona Grigória(ambos já no Oriente Eterno), que eu os considerava como meus avós.

Entretanto, o respeito aos mais velhos era fundamental na Fazenda Velha de outrora. Boa parte das crianças crescia e ficava adultas chamando minha avó, a dona Maria, de avó e tomando-lhe a bênção e tendo o maior respeito, essa atitude se estendia a todos os mais velhos, verdadeiras referências para nós os mais jovens.

Ao ser nomeado para a função de Oficial de Justiça na Comarca de Ituberá, após aprovação em Concurso Público, no ano de 1985, encontrei dentre outros, “seu” Onésimo (já no Oriente Eterno), dona Zélia, quepara mim se tornaram referências positivas e jamais eu conseguiria chama-los de Onésimo e Zélia e até mesmo dona Anailda que foi da minha turma e recordo-me, essa cidadã tinha 37 anos de idade e insistia para que eu a chamasse de Anailda, minha formação familiar e meus valores não me permitiram e até hoje que o  chamo por dona  Anaildae nutro por ela uma admiração, um respeito e um carinho excepcional.De fato eu não sei quais são as causas que, por certo merece uma investigação científica, porém antevejo esse tipo de comportamento como uma das causas de um futuro problemático para uma sociedade que perdeu suas referências positivas. Vale lembrar queWalter Praxedecitando Bauman (2010), afirma que: “a modernidade é a era em que a vida social passa a ter como centro a ideia da existência do indivíduo do individualismo, demarcados por uma crescente autonomia em relação à vida comunitária e social”.

A continuar assim, em poucos anos, Ituberá e, acredito não ser uma particularidade local, mas sim um modus vivendi relativo a todas pequenas sociedades, as pessoas não mais se cumprimentarão nas ruas e a indiferença típica das metrópoles, serão uma marca mesmo nas cidades pequenas.

Tanto é verdade que, Zygmunt Bauman, nos traz o conceito de modernidade líquida, nos mostrando que as relações interpessoais não são mais sólidas, ou seja, não são mais duradouras. Vejam o que esse autor diz, emsua obra A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas: “Os homens são tão necessariamente loucos”,  sofismava Blaise Pascal, “que não ser louco seria outra forma de loucura.” Não há saída para a loucura senão outra loucura[…]”.

De fato muito embora se deva admitir que frases como as enunciadas acima, podem “dar um nó” nas cabeças menos avisadas e desacostumadas com o pensar científico e com o filosofar, entretanto, não se pode negar o quanto de verdadeiro esse enunciado contém e, é muito provável que seja uma forma de se começar a entender as reflexões aqui trazidas que, para uns, é fruto da evolução humana. Porém, a priori, não consigo entender, essas mudanças comportamentais que submergiram as pequenas cidades,como uma evolução.

Ainda Zygmunt Bauman nos esclarece: “As pessoas seguem a correnteza, obedecendo às suas rotinas diárias e antecipadamente resignadas diante da impossibilidade de mudá-la, e acima de tudo convencidas da irrelevância e ineficácia de suas ações ou de sua recusa em agir”. Mesmo entendendo que, o indivíduo tem não somente o direito, como também o dever em lutar, quanto ao menos por sua própria emancipação socioeconômica e da sua família e entendendo que, na maioria dos casos isso é possível, não devo negar os efeitos nefastos da dominação socioeconômica, cultural, racial, dentre outras formas de dominação e de preconceitos,  sobre os indivíduos e classes dominadas. Decerto, o enunciado de Zygmunt Bauman, serve como uma das formas para se começar entender essa apatia e essa indiferença social vigente.

Se gostou, compartilhe...Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.