janelas-abertas-leandro-lacerda

No dia 10 de janeiro desse ano (2016) foi noticiado nas redes sociais o falecimento do cantor, ator, compositor e produtor musical britânico David Bowie aos 69 anos.

Bowie tornou-se um ícone da reinvenção, da auto-reciclagem e das possibilidades. Quebrou paradigmas e influenciou artistas e toda uma geração.Apenas sou um admirador de sua obra e de sua visão quanto artista. O fato de Bowie ter vivido e tenha sido autêntico no que era sem ter medo de aniquilar os defasados conceitos de moral a qual a sociedade pensa se orientar, fez-lhe experimentar, evoluir e alcançar os resultados desejados em sua arte, colocando-o à frente de muitos em sua volta.

David Robert Jones nasceu no bairro londrino de Brixton e começou a tocar saxofone aos 13 anos. Em 1969 lançou a música “Space Oddity” que alcançou o 5° lugar no UK Singles Chart.

Apesar de o músico ter lançado anteriormente o álbum “David Bowie” e outras canções, seu trabalho foi reconhecido a partir de 1969 com a música “Space Oddity” que fala sobre um astronauta fictício criado pelo Bowie, chamado Major Tom, que deixou a vida na Terra para viajar além das estrelas. Major Tom seria o personagem protagonista de outras canções como AshestoAshes e HalloSpaceboy.

David Bowie desenvolveu trabalhos experimentais e durante um período de aproximadamente 03 anos lançou os álbuns The Man Who Sold The World em 1970 (cuja faixa título foi regravada pelo Nirvana em seu disco Unppluged produzido pela MTV) e HunkyDory (1971). Em 1972 Bowie retornou aos palcos com apresentações performáticas exibindo um alterego extravagante e andrógino chamado ZiggyStardust e o aclamado álbum “The RiseandFallofZiggyStardustandtheSpidersfromMars”. Este último obteve tamanha repercussão que foi cultuado como nunca havia sido em outros lançamentos do cenário da cultura do rock.

Em 1973 David Bowie lançou o disco “AladdinSane” que levou o personagem Ziggy para os EUA. A vida curta do personagem revelaria uma das muitas facetas de uma trajetória marcada pela reinvenção, pela inovação musical e pela apresentação visual/teatral que o tornaria conhecido como o “camaleão do rock”.

Em 1974 foi lançado o álbum “Diamond Dogs”, este soava uma temática caótica prevendo o cenário punk que surgiria alguns anos depois com bandas britânicas como os Sex Pistols. No ano seguinte, Bowie alcançou seu primeiro sucesso nos EUA com a música “Fame” em co-autoria com o exBeatle John Lennon, presente no álbum “Young Americans”. Nesse período sua música sofreu grandes mudanças no estilo e não foi muito bem digerida pelos seus fãs no Reino Unido.

A carreira musical de Bowie se renovou mais uma vez. Nessa etapa, um novo e último personagem foi criado, o Thin White Duke (“Duque Magro e Branco”, em português). O Duke utilizava um vestuário estilizado de cabaré, o que aparentava ser menos extravagante e surreal do que seus personagens anteriores. Nessa fase, Bowie como muitos outros artistas, viveu um momento de consumo exagerado de cocaína e sua personalidade exibida nas entrevistas parecia mais perturbadora que nunca. Vestido de camisa branca, calças pretas e colete, “Duke” representava um homem vazio, cantando canções de amor com uma intensidade desesperada, enquanto nada sentia. Seu personagem foi descrito como um “aristocrata demente” ou “um super-homem ariano sem emoção”, para Bowie, “Duke” de fato era um personagem negativo e monstruoso.

No final dos anos 70, a música “AshestoAshes” do álbum ScaryMonsters (and Super Creeps) lançado em 1980, alcançou o primeiro lugar no Reino Unido e lançou bases para um novo movimento, o “New Romantism”. No ano seguinte, Bowie escreveu e gravou com a lendária banda “Queen” (liderada por Freddie Mercury) a música “UnderPressure”, atingindo logo em seguida novamente o pico comercial com o álbum “Let’s Dance” em 1983.
Entre os anos de 1990 e 2000, Bowie continuou a experimentar novos estilos musicais. Lançou o álbum “Reality”, bem recebido pelos fãs e críticos e foi um dos álbuns mais aclamados de Bowie desde “ScaryMonsters”.

Dez anos se passaram até que foi anunciado via Facebook e através do seu Site o lançamento do novo algum, o “The Next Day” sendo o seu 27° álbum. Em apenas uma semana, o álbum se tornou o mais vendido no Reino Unido e ganhou três indicações ao Grammy (Melhor performance de rock ‘Stars Are Out Tonight), Melhor Conteúdo Extra (The Next Day Extra) e Melhor Álbum de Rock.

A influência de Bowie foi além da música, para gerações de sua época e futuras. Ele auxiliou movimentos como a “libertação gay” e a recriação de uma nova juventude independente, introduziu novos estilos de se vestir no palco e teve uma carreira prestigiada no cinema atuando nos filmes: ZiggyStardustand The SpidersfromMars (documentário musical de 1973), O Homem Que Caiu na Terra (ficção científica de 1976), Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída (drama de 1981), Furyo, Em Nome da Honra (drama de 1983), Fome de Viver (terror de 1983), Um Romance Muito Perigoso (comédia dramática de 1985), Labirinto – A Magia do Tempo (fantasia de 1986), A Última Tentação de Cristo (drama de 1988), TwinPeaks – Os Últimos Dias de Laura Palmer (policial de 1992), Basquiat – Traços de uma Vida (biografia de 1996), Zoolander (comédia de 2001), O Grande Truque (drama de 2006), The Love WeMake (documentário de 2011) incluindo algumas participações em séries como Dream On e Extras.

Bowie soube escolher papéis desafiadores e ecléticos em sua carreira como ator de cinema e teatro. Entre suas interpretações estão um extraterrestre, um vampiro, Andy Warhol, Nikola Tesla e Pôncio Pilatos.

Sua morte foi lamentada por diversos artistas, entre eles o cineasta Martin Scorsese que comentou: “É um choque pensar que David Bowie se foi”, disse o cineasta em entrevista à revista Entertainment Weekly. “Ele foi um desses artistas extraordinários que surgem tão raramente. Há uma canção no seu disco “Low” chamada ‘Speedof Life’ (‘Velocidade da Vida’, em português) e era nessa velocidade que ele parecia se mover — sua música, sua imagem e seu foco estavam em constante mudança e em cada movimento, cada mudança, ele deixou uma profunda marca cultural”.

David Bowie lançou seu último álbum intitulado “Blackstar” no dia do seu aniversário de 69 anos, 02 dias antes de morrer. Em seu último clipe, com o rosto enfaixado como o de uma múmia e olhos negros de botões, quase caídos, faz-nos acreditar que havia ali um novo personagem de Bowie. Em Blackstar, uma das canções do último álbum que tem uma estrela na capa e não o seu rosto e que leva o mesmo nome, cantou “Alguma coisa aconteceu no dia em que ele morreu. O espírito subiu um metro e afastou-se”.

Examinando seu último álbum, não foram encontradas evidências de um moribundo, arrependido ou sombrio, de quem tinha consciência de sua morte iminente, mas sim de um artista em estado de transcendência, de encontro com a morte seguindo os passos de sua dança, dançando com a morte.

[1] A parada musicalUK Singles Chart (em português: Parada de Singles do Reino Unido) é, atualmente, compilada pela The Official UK ChartsCompany (OCC) baseada na indústria musical do Reino Unido.

[2] Movimento musical e comportamental de curta duração, dentro da New Wave, que atingiu seu ápice no Reino Unido e Irlanda do início da década de 1980, cujos integrantes são chamados de Novos Românticos em português.

Se gostou, compartilhe...Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.