carlos-magno

São dez milhões e quatrocentos mil desempregados no Brasil. A TV anunciou o número. Frio número. Aureliano ouviu aquilo e acrescentou, dez milhões, quatrocentos mil e um. Dez milhões, quatrocentos mil e um, repete. Tomou um gole do café que já se esfriava. Respirou fundo. Dez milhões, quatrocentos mil e um. Um! Um! Atirou a xícara contra a TV. A louça barata foi desviada por mão santa de um anjo, espatifou-se contra a parede. Salva a TV. Quatrocentos mil e um! Dez milhões, quatrocentos mil e um. Eu também sou gente! Será que não valho nem como estatística!? Gritou como nunca havia gritado. Chorou como nunca havia chorado. Ele era do time de que homem não chora.

O pessoal da lanchonete, quase todos amigos de Aureliano, ficou desconcertado. Alguns também perderam o emprego. O dono da lanchonete ficou mudo. Estático. Amigo de Aureliano desde a infância. Compadre. Os amigos, amargurados, viram o companheiro passar a manga do casaco roto no nariz. Constritos, testemunharam o amigo chorar. O Aureliano chorou. Eles abaixaram os olhares. Não desejavam ver a humilhação do amigo. Do colega. Também não desejam ver que eles eram partícipes daquela ignomínia que estava se esfregando na cara deles: o desemprego.

Na manhã seguinte, não eram nem dez horas da manhã, quando chegaram com a notícia. Aureliano havia se enforcado. A filha o encontrara dependurado no caibro. Nenhum bilhete. A Carteira de Trabalho no chão.

Aureliano contribuiu para a diminuição do desemprego. Dez milhões quatrocentos mil. Um a menos. A TV agora estava certa.

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