amalia-grimaldi

(Pequenas histórias de Valença)

Entre céu e terra, meu espaço de pensar. Não haveria aí cerca de arame farpado, nem tão pouco muro divisor entre vizinhos. A correr livre na ilusão, em terreno de areias móveis, e viver a  beleza dramática das árvores  de quintais circundante entre os muitos riachos de piabas, berçário de muitas espécies.  Vestia eu menina as mais dadivosas cores da infância: um véu de estrelas, sob um telhado de céu – sobrado de cores. Baú cortejado. Um mundo dentro de casa, ausente de claustrofobias. A última demão bastava, já via naqueles toques dourados o realçar de brios. Conluio agregador. Tempo celebrados em cores de anilina, em muitos bolos confeitados que provei.

Férias escolares. São João, Natal e Carnaval. Aquela casinha beira-rio, uma porta e duas janelas. Um quartinho sem porta, paredes e prateleiras se viam abarrotadas de potes de geleia. A companhia querida do cachorro Sultão, e da galinha Mimosa a chocar os ovos embaixo da cama. Quanta estimação! Típica composição familiar de um espaço condenado à orfandade do tempo, ora esvaído. Visitas de morcegos, e pios longínquos de aves da noite; muitas vezes sentia-se o sinistro no aziago, de algum lugar alhures. Pensamento de gente grande. Ali sempre fora meu porto seguro, meu pequeno lugar de pensar grande.  Hoje em dia, no passar de águas tormentosas e na sinuosidade de acontecimentos voláteis, contemplo a circunavegação da eterna verdade. Vou de encontro a passadiços e corredores dessa dinâmica paradoxal. Mais adiante sigo ao encontro do imbatível mar e suas ondas altas, o que me traz uma possível dramaticidade nessa minha fluída narrativa. E nessa relação espacial, de uma certa  tensão superficial, existiria uma nítida percepção, sem dominação contudo.  Mais perto dos meus pés, longe daquele tempo, sinto que areias quentes e conchas alvas ao encontro se merecem.

Alhures, através da névoa envolvente da lembrança, distingo, em significativa tinta sépia, o frágil desenho do tempo. Veria então, um delicado esboço em fino papel de arroz. Felizes, vejo aí crianças leves e suas bolas azuis, que no momento se merecem.  Enquanto isto, pelas calçadas fervilhantes da vida moderna, assisto os passantes matinais, rumo ao labor de todos os seus árduos dias. Haveria um lugar meridional, algo parecido com o paraíso, onde conchas e flores conviveriam num abraço de mar, como um vínculo intercalado nessa dinâmica paradoxal. Distante, ao poente, a bela e inesquecível vista da falésia do Morro, figura em meus pensamentos nessa noite romântica.

 

 

 

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