Eduardo Pereira - matutando

Eduardo Pereira

Historiador, jurista e psicanalista em formação.

 

Num meio em que tudo lhe é ad­verso, podia o homem do campo permanecer inerte, passivo, cruzar os braços diante de uma ordem de coisas que se esboroa sobre ele? (Rui Facó)

 

Muito se tem escrito e falado sobre esse lendário personagem, Virgulino Ferreira da Silva, sua trajetória no cangaço, onde se transforma em Lampião. Uns o consideram herói, outros, no entanto, o consideramcomo um bandido sanguinário; uns o amam e outros o odeiam. A verdade é que ninguém lhes é indiferente.

Não se deve estudar um fenômeno social fora do contexto sócio histórico, cultural, econômico, geográfico, etc. em que o mesmo ocorreu. Assim, vale esclaecer que termo cangaço faz referência a “canga”, instrumento feito em madeira colocada em pescoço de bois para puxar os chamados carros-de-boi, ou nesta região para “carrear” madeiras, pesados toros de a serem puxados por bois. Portanto, a junção do termo canga com o vocábulo açu que em tupi-guarani significa grande, comprido, longo, seria em metáfora, que daria origem ao termo cangaço, significando uma canga grande, a unir todos os sertanejos pobres.

Para alguns pesquisadores, a seca do ano de 1877, possibilitou a fundação do cangaço. Essa seca que assolou o nordeste brasileiro criou uma massa de flagelados, com revoltas e saques a fazendas e armazéns. Aliado a isso, a ausência do Estado para garantir direitos especificamente aos mais pobres que ficavam à mercê dos coronéis, figuras representadas pelos latifundiários, manipuladores do poder político, eram considerados“donos de gado e gente”.

Para determinados estudiosos dessatemática, o primeiro cangaceiro foi Jesuíno Alves de Melo Calado, o Jesuíno ‘Brilhante’, por volta de 1840; para outros no entanto, foi Lucas Evangelista dos Santos, por volta de 1828. Fico com aqueles que creditam ao Lucas da Feira, como era conhecido o Lucas Evangelista, a primazia do cangaço.

E, por falar nesse emblemático personagem, recordo-me como dona Gregória das Neves, uma sertaneja de alta envergadura, que no início do século XX, que viajou com sua família a pé de Conceição da Feira a Igrapiúna, fugindo da seca, e do flagelo dos coronéis, vindo depois a residir na Fazenda Velha, onde eu a conheci,falava sobre os feitos desse seu famoso conterrâneo.

Nascido em 18 de setembro de 1807, na Fazenda Saco do Limão, de propriedade do Padre José Alves Franco, ainda jovem, Lucas Evangelista dos Santos demonstrava sua rebeldia e seu proprietário, o mandou para o Arraial de Sant’Anna, sob o pretexto de aprender o ofício de carpinteiro, de onde fugiu da em meados de 1828, formando um grupo com outros, dentre os quais, Flaviano, Nicolau, Bernardino, sendo o referido grupo é considerado por alguns historiadores como o primeiro grupo de cangaceiros. Para alguns pesquisadores, Lucas da Feira lutou contra a escravidão e foi um Robin Hood baiano. Foi preso e ficou encarcerado no Forte de São Pedro em Salvador,por um ano, e condenado á pena de morte enforcado em 25 de setembro do ano de 1849, no Campo da Gameleira, atual  Praça D. PedroII, em Feira de Santana.

lampiao01Nascia em 7 de julho do ano de 1897, em Água Bela, atual Serra Talhada, Estado de Pernambuco, Virgulino Ferreira da Silva, terceiro filho do casal José Ferreira da Silva e Maria Lopes. Virgulino teve seu pai que era dono de uma pequena propriedade rural envolvido em questões de terras comfazendeiro José Saturnino, fugindo da perseguição, a família foi morar em Alagoas, onde o Sr. José Ferreira foi assassinado  pela polícia, a mando do seu desafeto.

O assassinato do seu pai por questões agrárias, como costumava ocorrer no nordeste causou revolta em Virgulino que, com seus irmãos, na busca por vingança entram para o movimento do cangaço, indo para o bando de Sinhô Pereira, no ano de 1918. Em 1922, Sinhô Pereira deixou o cangaço, a pedido do Padre Cícero e foi viver em Goiás sendo substituído no comando do grupo pelo jovem Virgulino, agora Lampião.

Lampião no comando do grupo atacou a cidade de Água Branca no Estado deAlagoas com o saque à Baronesa dona Joana Vieira Sandes Siqueira Torres, conseguiu os recursos para iniciar o seu projeto de cangaço. Em Serra do Catolé, em Pernambuco, no ano de 1924, Lampião é ferido gravemente em combate. Naquela ocasião foi operado pelo médico Severino Dinis, graças a interferência do coronel Zé Pereira da cidade de Princesane Estado da Paraíba.

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A partir de 1928, Lampião passa a viver entre Alagoas, Sergipe e Bahia, onde neste último estado, no ano de 1930 conhece Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita, com quem começa a conviver e no ano de 1932, nasce Expedita, filha do casal.

No dia 21 de agosto de 1928, Lampião atravessa o Rio São Francisco e entra no estado da Bahia. Após um período classificado por alguns pesquisadores como “férias”, ocasião em que participava de festas de casamentos, organizava rodeios e se divertia. Findo o período de “férias”, lampião retorna a sua vida de antes, percorrendo várias cidades baianas, inclusive Tucano, Cansanção, Queimadas, etc.

Lampião é emboscado e morto pela polícia alagoana, na Grota do Angico. Município de Poço redondo, estado de Sergipe, no dia 28 de julho de 1938. Anualmente, no dia 28 de julho,é celebrada uma missa no local, com a presença de muita gente. O curioso é que a mídia nacional nada divulga a respeito, o autor desse trabalho só teve essa informação quando esteve no Angico.

Uma análise objetiva do contexto em que viveu Lampião, onde imperava o latifúndio semifeudal, com os coronéis mandando de forma vil, sendo a lei do sertão, a ausência do Estado, a pobreza, as privações, a violência implementada desde os tempos dos ataques aos indígenas seus primeiros habitantes, indaga-se de que lei Lampião estava fora?

Certamente Virgulino Ferreira, vítima que foi com a tomada das terras da sua família, o assassinato do seu pai, o Sr. José Ferreira, estava fora Lampião da lei dos coronéis do sertão, ou seja, à submissão à qual esses senhores impunham à gente simples e oprimida do sertão, considerando-se como seu antecessor, o senhor de escravos, dono daquela gente, ou na semelhança dos seus sucessores, o fascista, coisificando o outro. Como isso não se quer dizer que Lampião tenha sido um santo, porém se pode afirmar com isenção, que Lampião foi um homem do seu tempo, com a mesma cultura do seu lugar e que reagiu ao mando dos coronéis, com a mesma violência empregada por estes, reinando por vinte anos nos sertões nordestino.

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