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De Melbourne, Amália Grimaldi.

“Sobre a ilha de Manus, uma pipa no céu vai de encontro a nuvens de algodão. Alguns jovens a construíram, encontram-se ainda com energia para enfrentar dificuldades no centro de detenção. A pipa negra voa alto como mensageiro da liberdade por nós, os prisioneiros esquecidos. Voa alto em círculos, cada vez mais alto voa sobre o campo, sobre os belos coqueiros. Nossos olhos acompanham seu voo que parece quebrar a corda. Partiu-se a corda que a prendia ao menino e agora dança, segue de encontro ao oceano, voa longe e longe e de novo longe até que ninguém mais a avista. Os jovens, esvaziados, miram um céu vazio, depois do sonho impossível…”

Behrouz Boochani, 32 anos, é um jovem iraniano da minoria Kurda ora prisioneiro (dois anos) no centro de detenção criado pelo governo da Austrália no país vizinho Papua Nova Guiné, na ilha de Manus. Berouz Boochani escreveu estes versos no centro de detenção. Aliás, escrever é seu único alento, e o faz dezesseis horas por dia.  Suas palavras chamam atenção pela leveza e conteúdo emocional, profunda tristeza e solidão, principalmente quando fala: ‘eu vejo a pipa desaparecer levando com ela toda esperança’. Esta é a situação dos jovens refugiados que pedem asilo a Austrália e encontram-se nesse campo de detenção sem definição e sem futuro. O número de suicídios entre homens e mulheres, e até de crianças, vem despertando a ira de escritores e intelectuais que reclamam do governo australiano.

Distanciamento e desumanidade. As autoridades australianas, com discurso de retórica negativa, procuram convencer o povo através do medo. Negar asilo político a essas pessoas que foram drasticamente desalojados de se seus países, e que se submeteram a uma jornada de vida e morte, em mãos de aliciadores desonestos em barcos precários e superlotados, para o governo nada disto importa.

Atualmente Behrouz Boochani escreve para os principais jornais australianos. Como jornalista reporta acontecimentos no interior desta ilha-prisão. No recente festival de escritores ‘Melbourne Writers Festival’, num grande painel de debate, foi discutido o teor estratégico da linguagem do governo dando forma ao que se denomina “narrativa do refugiado”.

Intelectuais e povo não se calam, usam a mídia (TV, jornais e rádio) para comunicar à sociedade sobre a situação dessas pessoas presas e criticam a linguagem estereotipada oficial do governo. Vão às ruas em passeatas levando cartazes com voz de repúdio às autoridades. Enfim, todos aqui esperam por uma definição. Aliás, o mundo todo espera!

*Publicado na edição impressa nº 604, do jornal Valença Agora

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