Eduardo Pereira - matutando

Eduardo Pereira

Historiador, jurista e psicanalista em formação.

 

Na antiga Fazenda Velha, fazia parte dos costumes, o menino antes dos quatorze anos de idade tomar um porre de cachaça, na venda de Arceleu, na venda de “Caramelo” ou em outros locais similares. Coitado do cabra que completasse quatorze  anos sem ter  ir no meretrício, região conhecida por Volta do Gás, certamente seria vítima das mais diversas gozações e chacotas.

Nesse contexto, chegam à dita localidade o Sr. Aprígio e sua família. De fato Aprígio fora um candango, que migrou da Fazenda Velha para o Planalto Central, nos anos 50, para trabalhar na construção de Brasília. Atraído pela propaganda, esperava encontrar um oásis no cerrado, entretanto, lá só encontrou “espeto”.  Não aquentando mais a desesperadora situação, Aprígio arrumou os “quase nada”  e  retornou com toda a sua família.

O menino Aniceto, com nove anos de idade, vê-se forçado a deixar seus amiguinhos na distante Ceilândia Sul – DF para retornar à Bahia. Busca a toda prova adaptar-se à sua nova vida na distante Fazenda Velha. Com jeito consegue, pois é um menino bom, seu pai arruma emprego, é ajudado pelos solidários moradores do local, enfim o menino que fora para Brasília recém-nascido, torna-se de fato e de direito um ituberaense.

Tudo vai muito bem, sua mãe o matricula na Escola Municipal Centro Operário e o menino exibe orgulhoso o “EMCO”, bordado pela bordadeira Dona Joana, com linha azul, no bolso da sua camisa branca. Ao completar doze anos de idade, o garoto é levado pelos mais velhos, dentre esses alguns pais de família para a venda de “Caramelo” situada nos arredores da Fazenda Velha, mais precisamente na localidade conhecida por Luíza e lá é obrigado a tomar seu primeiro porre de cachaça. Com a cabeça cheia de “Velho Barreiro”, o inocente Aniceto, enlouquece, começa a quebrar o que vê pela frente.

O pequeno valentão não respeita ninguém, parte para cima de “todo mundo” com palavrões e munido de uma peixeira que tirou da cinta do “Velho Mané do Norte”, velho esse vindo da região de Nova Soure e que não largava a sua peixeira. Com muita dificuldade, Euzébio, também conhecido por “Ozebe Brabo”, um exímio capoeirista, desarma o valentão, o imobiliza e com a ajuda de outras pessoas o entrega para a sua família. Esse show de arruaça rendeu a Aniceto o apelido de “Ceará” e daí por diante seu nome de batismo foi completamente esquecido por todos moradores da comunidade.

O jovem “Ceará” que, como se disse, já completara quatorze anos e é hora de levá-lo a um prostíbulo, popularmente conhecido por brega. Como “Ceará” ainda não trabalhava, era costume arrecadar-se dentre os homens uma quantia para o pagamento a uma profissional do sexo e assim iniciar o jovem na vida sexual, como diziam: “tirar a donzelice” ou “quebrar o cabresto”.

Tudo certo era pagamento dos empreiteiros e nessa ocasião, o brega era uma festa só. Coube ao experiente “Remendado” levar na sua bicicleta totalmente enfeitada o jovem “Ceará” no bagajeiro de carona para a região do meretrício. Uma fresta, hoje “Ceará” vai “quebrar o cabresto” diziam.

“Remendado”, velho conhecido e amigo das meretrizes, logo arrumou uma das suas experientes amigas para iniciar o jovem e imaturo “Ceará”. Tudo certo rumaram ao quarto, a bela e experiente profissional à frente seguida pelo inexperiente “Ceará”. “Remendado” e seus amigos, se deliciavam com a cena e comemoravam aos brindes de Conhaque Presidente, o 5 estrelas da Bahia, ao som de Amado Batista, Bartô Galeno, Pinduca, etc.. muitos homens dançavam e se divertiam .

controladora1Já entre quatro paredes, o dinheiro arrecadado com a “vaquinha”, para pagamento do serviço sexual a ser prestado no bolso, ao ver a profissional do sexo em posição para o coito, assustou-se, pois somente em Revistas  tinha visto tamanha sensualidade. Assim assustado e atarantado “Ceará” exclamou: “Dona eu já vi tudo! Quanto é? Ao ouvir a resposta que o serviço custaria Cr$ 20.000,00 (vinte mil Cruzeiros), o donzelo jogou a quantia em cima da cama e saiu em desfechada carreira, ou como se diz na roça, virou ”filho de nambu” (numa alusão a um filhote de um pássaro que corre tanto e some na mata – a nambu), indo parar na Fazenda Velha, prestes a ter um colapso, haja vista o tamanho susto.

As atitudes narradas, evidenciam o caráter machista de uma sociedade com origem patriarcal, pois enquanto os rapazes eram incitados a de forma precoce a iniciarem sexualmente, sendo escorraçados os que assim não procedessem, as moças pelo contrário, coitada daquela que fizesse “mal de si”, desse um “passo errado” ou fosse “desonrada” (linguagem machista da época) . Era casada à força, ou era expulsa de casa e condenada por toda uma sociedade que virava às costas para uma mulher que, segundo a oralidade da época “não era mais moça”.

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