araken-galvao

Conforme prometi (e desta vez estou cumprindo a risca o prometido).

 

É possível até que o autor daquela singular façanha, a que nos referimos no início, não fosse um caçador inábil, mas tão-somente um pai viúvo ou que a mulher fora levada, arrastada pelos cabelos, depois de ter recebido uma potente cacetada na cabeça, por outro homem mais forte. Nesse caso, aquilo que seria, bem mais tarde, chamada de literatura, fantástica ou não, já teria nascido retratando desditas de amor. É possível também que o troglodita que foi visto arrastando a mulher pelos cabelos, como pensam os humoristas que era usual na época – não tenha desferido porretada alguma. Tudo tenha transcorrido de forma um pouco diferente, mediante a um pérfido acerto entre as partes, mais ou menos nos seguintes termos: Eu finjo que bato e você finge que desmaia. A única coisa real no nosso trato – teria dito o troglodita em questão –: será que eu te levo para minha caverna. Certo, mas arrasta pouco e com cuidado, para não maltratar minha pele, depois me coloca no ombro. A suposta sagacidade da mulher, tão retratada na literatura, possivelmente estaria criada naquele momento.

No entanto, é bem provável que os fatos não tivessem transcorrido da forma indicada, o primeiro homem citado, por não ter companheira, por razões que não nos interessa, pelo menos não nos interessa nesse momento, por desconhecer o acalanto “Boi da cara preta”, tenha contado a seu rebento, para que ele conciliasse logo o sono, uma história que, bem mais tarde, chamar-se-ia de “Bicho Papão”. Mas pode ter ocorrido ainda que, o nosso inábil caçador, justamente por sua inabilidade naquele mister, tenha se especializado em entreter as crianças enquanto as mulheres inventavam a agricultura – já que a caça andava escassa e mais escasso estava o grupo de bons caçadores –, criando dessa forma as baby- sister, as niñeras, as creches e as escolas.

Mas se isso ocorreu – se é que chegou a ocorrer – não deve ter sido dessa forma linear, que a vida dá voltas, como sabemos todos por tanto termos ouvido os mais velhos repetirem. Assim que na década de 20, do século XX, de nossa era, em um minúsculo país da América do Sul, chamado Uruguai, um pianista, de nome Felisberto Hernandez, seguindo inconscientemente as pegadas daquele péssimo caçador, chegou a contar histórias sobre a Casa Inundada, onde Ninguém Acendia as Lâmpadas porque todos estavam preocupados com O Cavalo Perdido.

Permanecendo em nosso continente – já que foi nele, ao que parece, que os ensinamentos daquele torpe caçador mais influenciou, na segunda metade desse mesmo século XX, de nossa Era, um homem também de gênio, contou a história de um Coronel e o Lobisomem, no entanto essa história não transcendeu ao um pequeno círculo de iniciados, permanecendo praticamente desconhecida ou ignorada.

Poucos anos mais tarde, ainda em nosso continente, por essa época, alguém falou de Cem Anos de Solidão. E o mundo despertou – ainda que ninguém mais se lembrasse do homem das cavernas, que teria iniciado tudo – e, por momentos, a civilização voltou a ser igual ao tempo em que se escreveu As Mil e Uma Noites, que se escreveu a Ilíada e A Odisséia, ao tempo de Don Quijote de la Mancha. Voltou até a se lembrar de um tcheco sombrio, lúgubre mesmo, de nome Franz Kafka.

Frente a essas evidências, depois de ter vivido muitos anos exilado em alguns países da nossa América, a Hispânica, no caso, sendo sertanejo e, por tanto, fortemente influenciado pela magia do sertão, eu, Araken Vaz Galvão, resolvi – seguindo àquelas pegadas, duplamente ancestrais – escrever “Crônica de uma Família Sertaneja”, “Saga de um Menino do Sertão”, “Histórias Sertanejas” e “O Jagunço Velho” – minha tetralogia do Sertão – para voltar ao tema da fantasia e do absurdo, com esta “Trama Esgarçada e outras pequenas histórias”, a qual encerrei hoje, dia 7 de janeiro de 2016, de nossa Era, quase as véspera de que meus 80 anos sejam completados. Obras que espero publicar ainda este ano.

Tendo chegado a esse ponto, animei-me a tentar responder a minha amiga e assistente (quase minha filha, ou seja, minha filha de coração), não com a forma pessimista com que seu olhar preocupado, por momentos externava, inundou minha alma, mas com um pouco de esperança.

Por isso digo que se me perguntarem por que escrever no estilo fantástico depois de Cem Anos de Solidão e outros expoentes do nosso continente, respondo na esteira do uso que Hemingway, em “Adeus as Armas”, fez do final dos versos de John Donne, e respondo: Sem fantasia, a realidade da vida, em sua chatice diária, é insuportável. Que o digam aqueles que se dopam com as mais variadas drogas (ou se divertem jogando no celular ou no computador) ou simplesmente pregam um tiro nos miolos. E reafirmo: Eu escrevo por ti, por vocês. Afinal, o fantástico na literatura (ou a literatura simplesmente, em todas suas variantes) é como a própria fênix, renasce das próprias cinzas.

Eu creio nisso.

 

Valença, BA, 1 de março de 2011

 

 

 

©Araken Vaz Galvão

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