amalia-grimaldi

arvoreMargem pedregosa de seixos arredondados. À baixa maré sementes e gravetos trazidos pela correnteza aí sedimentavam. Certa vez, em viagem pela Ásia, no longínquo Estreito da Sumatra, em curta passagem por Malaca,conheci um jardineiro muito especial. Lao Chin , este era o nome do senhor, o jardineiro ancião, cuja família veio de Macau tempos atrás, ainda durante a dominação portuguesa. Tive a oportunidade de visitá-lo na pequena casa do ‘cuidador’ do jardim botânico dessa municipalidade. Notei que costumava coletar tratados de botânica e registros outros, de flores e frutos, de jasmins, antúrios e frangipanis. Curiosamente, como um jardim vertical eram as paredes da sala dessa casa decoradas como um mosaico, com figuras coloridas e tratados de botânica.

Aos 87 anos, aquele senhor vivia só, na companhia do seu gato. Na verdade a sua família constituía-se nas espécies do jardim que ele cuidava. Lao Chin seria um homem feliz, pois assim o refletia na obra que o mantinha vivo – o jardim botânico de Malaca. Introspectivo, com efeito, o mestre das flores em sua distante da ilusão espacial parecia-me parte do jardim representado. Buscava com periodicidade novas formas de representação, coincidindo com o final das chuvas de monções, o que significava a adição de mais elementos á sua composição. Seu jardim de vida pulsátil, com renovações periódicas, ressaltava cores, formas e texturas, onde juntava seixos polidos e pedras outras. Dedicava especial atenção às folhagens. Cuidava também para que as flores brotassem e desabrochassem com volúpia, enchendo de cores e ilusão o olhar e o coração do espectador visitante. A cada nova estação um novo jardim surgiria com uma força estrutural transcendente que nem a bela visão da paisagem do Estreito de Malaca, em sua estética paradoxal dinâmica – um vínculo intercalado entre as chuvas de monções.

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