Eduardo Pereira - matutando

A busca pelo diploma universitário, o NU (Nível Universitário), intensificou-se nos últimos anos. Você conversa com certas pessoas e logo vem: “Estou cursando curso tal”, evidentemente que nada contra, muito pelo contrário, é salutar que as pessoas vão à busca do saber.

A priori, o NU, serviria para o indivíduo iniciar-se no “mundo das ciências”, com a defesa de uma Monografia perante uma banca de cientistas. Assim sendo, os convites, a meu ver não deveriam ser para a colação do grau e sim para a defesa do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Não é o que vemos ninguém fica sabendo quando o acadêmico defenderá sua Monografia, e muito menos o tema da sua pesquisa; já a colação de grau (chamada por muitos de formatura), essa sim, é uma verdadeira festança e uma gastança descomunal que, na maioria das vezes, tal exorbitância serve de afronta para uma sociedade desigual como a brasileira.

A princípio, não vemos ninguém entrar para uma faculdade, seja qual curso for, na busca por um saber capaz de construir uma sociedade justa; em alguns casos, muito pelo contrário, presenciamos colegas de dado curso, afirmarem que iriam cobrar caro pelos seus serviços depois de “formados”, sob a descabida justificativa que a instituição cobrava mensalidades caras. Vejam a tamanha barbaridade e o pior por parte de quem estava a concluir um curso universitário.

O que temos observado é que, salvo honrosas exceções, boa parte dos estudantes buscam o diploma universitário, o chamado “canudo”, à procura de dias melhores, sob o ponto de vista financeiro e individual, tornando-se consumidores de bens materiais, na sua grande maioria supérfluos. Por exemplo, em dadas profissões, o profissional é “obrigado” a exibir um enorme veículo, a fim de demonstrar para o conjunto da sociedade que é uma pessoa de posses, bem sucedida, que está podendo, ou como se diz no senso comum: “Montado na grana”.

Passam longe os quatro pilares da educação, que consoante Relatório da UNESCO, seria: aprender a conhecer (adquirir instrumentos de da compreensão), aprender a fazer (para poder agir sobre o meio envolvente), aprender a viver juntos (cooperação com os outros em todas as atividades humana), e finalmente aprender a ser (conceito principal que integra todos os anteriores). Referido relatório foi editado em forma de livro, sob o título, Educação um tesouro a descobrir, Título original: LEARNING: THE TREASURE WITHIN: Report to Unesco of the International Commission on Education for the Twenty-first Century e poderá ser acessado em: <http://dhnet.org.br/dados/relatorios/a_pdf/r_unesco_r.pdf>.

Além do mais, as bases do ensino universitário, que em tese, seria a pesquisa que nada mais é do que a produção do conhecimento, o ensino que a priori significa a transmissão desse conhecimento e a extensão que, tem como significado a aplicação desse conhecimento na sociedade, salvo raríssimas exceções, meros enunciados retóricos.

Não obstante, foi e porque não dizer continua sendo, assustadora a manchete do Estadão: No ensino superior, 38% dos alunos não sabem ler e escrever plenamente. (disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/geral,no-ensino-superior-38-dos-alunos-nao-sabem-ler-e-escrever-plenamente-imp-,901250>).

porque as pessoas vao para faculdade-Eduardo PereiraReferida reportagem foi baseada em estudos do Indicador de Alfabetismo Funcional (IAF), divulgado pelo Instituto Paulo Montenegro (IPM) e pela ONG Ação Educativa,  publicado em 2012 (IPM; AE, 2012). Ainda, segundo a mesma pesquisa, o número de pessoas plenamente alfabetizadas com o ensino médio completo é de apenas 35%. Ou seja, 65% dos estudantes brasileiros considerados aptos a entrar na universidade são analfabetos funcionais.

Em que pese referidos dados serem do ano de 2012, sabemos que muito provavelmente, não existe nada de novo relativo aos aludidos dados, até mesmo porque, o próprio Instituto Paulo Montenegro, em 15 de julho do ano de 2015, publicou um trabalho intitulado Analfabetismo funcional, opressão de classe e exploração

 

(disponível em: < http://www.ipm.org.br/pt-br/noticias/saiunaimprensa/ Paginas/Analfabetismo-funcional,-opress%C3%A3o-de-classe-e-explora% C3%A7% C3%A3o.aspx>), utilizando-se dos referidos dados como embasamento do mencionado trabalho.

Então para que as pessoas vão para as universidades, muitas delas com enormes sacrifícios financeiros e físicos, pois depois de um dia de trabalho escorchante, vão para uma sala de aula de uma faculdade? Arriscamo-nos afirmar que, diante do observado empiricamente, e ainda com base nas mencionadas pesquisas efetuadas pelo Instituto Paulo Montenegro, resguardando as raríssimas exceções, as pessoas vão para esses ambientes de estudos, em busca de um diploma para “melhorarem de vida”, isso no campo pessoal, tendo como significado, trabalhar menos e ganhar mais dinheiro, para consumirem mais e assim, mudarem de classe social e serem bem vistos pelos homens.

Destarte, encontramos dois tipos de pessoas em busca de diplomas universitário, um dado grupo cujos ascendentes já eram diplomados e um outro grupo,  que poderíamos classificar como emergentes educacionais, que notadamente devido à expansão no nível de ensino superior na última década, foi-lhe possibilitado o acesso a esse nível de ensino, dantes reservado para os do “topo da pirâmide” social.

Uma pergunta não quer calar: “O que esses dois grupos têm em comum entre si?” Ousamos responder: O primeiro grupo luta para manter seus privilégios de casta e o segundo grupo luta para galgar privilégios e quiçá, transmitir a seus descendentes.

*Publicado na edição impressa nº 603, do jornal Valença Agora

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