araken-galvao
Estou acabando de ler, pela quarta, vez o livro de Ricardo Piglia, “Respiração Artificial ” desta vez o faço no original em espanhol, graças à amabilidade da minha amiga argentina, a professora Liliana Lavisse que me presenteoupela passagem do meu79º aniversário, trazendo-o da cidade de Córdoba, onde, por sua vez fora passar o seu, dela, também aniversário (que ocorre junto com a façanha gloriosa de Maria Quitéria, ou seja, no Dois de Julho), nossa máxima efeméride, ensejando-me, desta forma a oportunidade de poder ler aquele belo romance mais uma vez e no original.

Bem, recebi o presente, aproveitei para fazer algumas comparações entre o original e a sua tradução ao português, já que possuo alguma intimidade com o espanhol – consequência do exílio (nunca é demasiado repetir ) –,aproveitando ainda para lê-lo, não só pelo prazer da leitura em si, mas para ver se aquele livro continuaria sendo um dos quatro que mais me impactaram, como estrutura narrativa, de quantos livros li, em uma vida intimamente ligada a esta atividade.

O primeiro item foi ultrapassado com folga. O livro pareceu-me melhor do que achara das leituras anteriores, o que significou, de passagem, maior prazer. Quanto à tradução, embora tenha pressentido algumas lacunas (mas que podiam muito bem ser opinião particular sobre opções de linguagem popular ), não encontrei nada que desabonasse o trabalho de Heloisa Jahn, ademais se tratava de um livro de difícil tradução , o qual – temo – marcará para sempre seu autor, tornando difícil ele próprio se supere como ficcionista, não só pela erudição nele contida (o que o torna um livro erudito ), mas porque o emprego de uma narrativa complexa dificilmente seráultrapassado, constatação que se faz ao se comparar com outras obras de suasde ficção publicadas depois , as quais, em que pese seu poder de ficcionista, deixaram muito a desejar.

Por outro lado, tendo registrado o caráter erudito do livro de Piglia, fato que me fez lembrar algo que li, não me recordo se antes ou depois doseu livro, relacionado com um clássico de nossa literatura: “O Romance da Pedra do Reino”, de Ariano Suassuna, dito por Raquel de Queiroz, no prefácio escrito para aquele livro. Diz a escritora cearense – com bastante razão, não isenta de ironia –, ter muito medo de obras de ficção “eruditas”. Esclarecendo precisamente que: “Tenho medo de livro erudito. Livro de homem que leu tudo e sabe tudo e então compõe a sua obra reunindo todas aquelas sabedorias, costuradas com fio de seda; mas a gente sente logo que aquilo vem de cabeça inventiva, não dos flancos criadores do homem; e em arte a gente não quer astúcias intelectuais, mas vida pulsando, embora sem saber como pulsa e por que pulsa.”

Somente muito tempo depois de ter lido ambos os livros, foi que passei a fazer associação do que dissera Raquel de Queiroz, em relação à obra de Suassuna, pensando que poderia muito bem relacionar com a forma para qual Piglia escreveu “Respiração Artificial”. Afinal, mesmo continuando a pensar que este livro figura entre os melhores que li, não posso deixar de enxergar nele o “pecado” de quem leu tudo, pois nele encontrei muitas “astúcias intelectuais”, recursos vindos da erudição do autor (cerzido com fios de ouro) e “não dos flancos criadores do homem”. No entanto – e talvez neste ponto venha uma terrível contradição, na qual me debato, e que estaria relacionada com a característica básica da personalidade de um personagem de Piglia, no caso, o intelectual Tardewski, que está sempre a afirmar algumas verdades (quiçá deformação de caráter) que me são peculiares, tais como empáfia, orgulho e pretensão. Diz o personagem Tardewski: “[...] o orgulho intelectual, a esperança de poder provar aquilo, que realmente valemos (ou pensamos que valemos), é o mais difícil de abandonar.” Carapuça – chame-se desta forma – que encaixava como uma luva em minha forma de proceder em muitas oportunidades.

Sua obra, “Respiração Artificial” em uma visão única e unilateral, ao contrário de outra que também me marcou profundamente – de outro autor –, no caso “Um Belo Domingo”, do escritor hispano-francês, Jorge Semprun, autor também muito erudito, cuja narrativa também é complexa por bastante fragmentada, nota-se outra abordagem, até mesmo no uso da técnica de fragmentar a narrativa. No livro de Semprun há como determinado tipo de revolta – talvez por se sentir logrado, uma vez que ele, na juventude acreditou em coisas que na maturidade, ou melhor, já na velhice passou-se a sentir vergonha – o que anula muito do que poderia restar de belo em sua dramática narrativa.

O que poderia enquadra-se naquilo que Raquel de Queiroz disse que (...) a gente sente logo que aquilo vem de cabeça inventiva, não dos flancos criadores do homem;”. E reforça ainda lembrando que “(...) em arte a gente não quer astúcias intelectuais, mas vida pulsando, embora sem saber como pulsa e por que pulsa.”

Penso muito nesta contradição, na qual me debato, pois continuou achado o livro de Semprun, junto com o de Piglia (e mais os de Assis Brasil – “Beira Rio, Beira Vida” – e o de Manuel Scorza – A Dança Imóvel” –) as obras mais importantes para minha formação de escritor. O que me leva a concluir (ou a quase concluir) que, mesmo que cada obra literária signifique sempre algo diferente conforme cada momento de nossa vida, alguns nos marcam tanto que jamais conseguimos no desvencilhar dela.

Mas, onde entra Kafka em toda esta proposta de trabalho?
Isto está motivo para um próximo artigo.

Valença, BA, 06 de janeiro de 2016

© Araken Vaz Galvão

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