carlos-magno

Sentei-me, minha deleitosa amiga, meu jovial amigo, em uma mesa de um dos agradávies  cafés de Goiânia. Uma mesa em um jardim, sob uma mangueira. Tomava um capuccino com creme recoberto de pó de chocolate. Apreciava um momento de não fazer nada. Estabelecia-se uma tarde fresca. Quando levei o croassant à boca, algo me chamou a atenção na calçada. Uma camioneta de luxo estacionou reluzente. O que em Goiânia não é novidade. Pensei que fosse, mas não poderia ser. Ora, porque não poderia ser? Era o meu velho amigo Carmamel. Há quantos anos não o via. Estudamos juntos no Lyceu de Goiânia. Uma noite,durante a ditadura, à saída do colégio, ele foi detido. Ficou vinte e quatro horas no DOPS. Quando saiu, eu, por uma coicidência dessas que só a vida é capaz de proporcionar, estava passando lá na porta. Ele me abraçou e chorou. Falou-me que fora preso, confundido com outra pessoa.

Depois disso, nós fomos contemporâneos na Universidade de Brasília. Ele fazia engenharia. Continuava pobre que nem Jó.  Morava nos alojamentos que a Universidade reservava para alunos carentes. Do meio para o fim do curso, meu amigo trancou matrícula e migrou para a Inglaterra. Sem mais, nem menos. Uma bolsa de estudos. Nunca mais o vi, a não ser uma vez, embarcando no terminal marítimo de Valença. Gritei-lhe o nome e ele fez sinal de abraço. Riu alto. Aos gritos, fez-me entender que estava indo para o Morro de São Paulo. Corri ao longo do Una e gritei para que me procurasse na Santa Casa de Valença, quando voltasse. Não o encontrei mais, exceto quando ele desceu da camioneta de luxo.

Ele me olhou na minha mesa e ficou um tempo na dúvida. Eu acenei a cabeça e ele riu alto. Gargalhou. Abraçamo-nos. Em poucos minutos, ele resumiu a vida em uma atropelado de palavras. Deixara a universidade no quarto ano de engenharia. Fora para a Inglaterra. Trabalhara de garçom, gari, guarda noite e porteiro. Atá que construiu uma sólida fortuna: casou-se com uma imigrante da Índia. Filha de um industrial do ramo de siderurgia e do setor de informática. Casaamento de dezenove anos, sem filhos. Morou na Turquia, Dinamarca, Itália, Paquistão e onde o mandasse o sogro como representate. Acabou que se enviuvou. Voltou ao Brasil e o destino o trouxe a Goiânia, para cuidar das fazendas de gado, soja e de empreendimentos imobiliários. Ele que era pobre que nem Jó.

Conversamos do sol até lá pelas horas do término do Jornal Nacional, quando nos despedimos depois de trocas de telefones e de email. Programamos um novo encontro. Até hoje não liguei para ele e nem ele para mim. Que a vida é assim.

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