araken-galvao

Para Celuta, minha irmã

 

Ultimamente, tenho me lembrado mui amiúde de um poema de Mário Quintana, cujo título é, se a memória não me trai – coisa que ela me vem fazendo também mui amiúde, nesta curva da minha idade – “Vida”. Aliás, por já não possuir mais aquela minha mente prodigiosa em decorar letras de músicas e poemas, raramente me recordo do poema completo, agora, por exemplo, lembro-me apenas de alguns dos seus versos:

Quando se vê, já são seis horas!/ Quando se vê, já é sexta feira…/ Quando se vê, já terminou o ano…/ quando se vê, passaram-se 50 anos!

Não preciso realçar a amarga e sutil ironia que estes versos contém – fato que sempre caracterizou a obra de Quintana –, porque o que me interessa, e me preocupa, é a insistência com que – praticamente todos os dias – os versos vêm a minha mente.

Agora mesmo, penso neles com uma pertinácia atroz, indiferente ao sacolejo que o carro impõe ao meu velho corpo trafegando pelas ruas da cidade onde moro, de calçamento irregular de paralelepípedo. Aliás, não deveria estar pensando neles, os versos, e sim, no cheiro quase sufocante das flores. Ou melhor, das conseqüências que poderão advir, já que sou alérgico a determinados perfumes – quase a todos – e seria engraçado se me viesse uma crise de espirros… Claro que o insólito seria um edema de glote. Já pensou se morro? Outro motivo no qual deveria preocupar-me – eu que sou tão calorento – era com este ar abafado (misturado com o perfume das flores), o qual não me permite respirar livre e pausadamente. Por isso nem respiro. Mantenho-me impávido, de olhos fechados. Se bem que assim me comporto porque temo entrar em pânico. Sou claustrofóbico e só em pensar na pequeneza do espaço onde me colocaram… Não. Melhor não abrir os olhos. Nem pensar… Ater-me… em que mesmo? Se me são tão fugazes as lembranças…

Esse ambiente está quase me asfixiando, entretanto, e apesar de todo esse calor, do ar abafado, do olor sufocante das flores, sinto-me frio, quase gelado, mas os versos de Quintana, seu caráter de premonição, não me abandonam.

Agora, é tarde demais para ser reprovado…/ Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade,/ eu nem olhava o relógio./ Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo/ caminho, a casca dourada e inútil das horas.

Não olhar o relógio… Lembrou-me que costumava dormir com o relógio no pulso. Não sei se o fazia como um autômato, ou se com algum propósito específico, ainda que oculto. Não sei. Sei que olhava as horas, mas nunca parava para olhar a vida, vê-la passar de mansinho, de parar para ver um pôr do sol, admirar a luz prateada da lua ou o brilho furtivo das estrelas, deixar o vento bater no meu rosto. Corria. Apenas corria como um desesperado para frente. Atravessava as ruas e avenidas por entre os carros, sem respeitar ou obedecer aos sinais de trânsito. Driblando ônibus e automóveis, com uma irresponsabilidade arrogante, típica da juventude. Quanta coisa estúpida não se faz na vida, em particular quando se é jovem…

O pior é que só se descobre a inutilidade de tudo quando não se tem mais vigor para fazer algo de útil… Talvez o melhor fosse dizer que só se tem vigor para ficar no ócio, quando já não se consegue fazer nada. Poderia repetir as palavras de Quintana:

(…) Dessa forma eu digo:/ Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta/ de tempo, a única falta que terá, será desse tempo/ que infelizmente não voltará mais.//

Não voltou para o poeta; não voltará para mim, para ninguém.

Acabaram de me retirar do carro e estão me transportando para algum lugar. Se ao menos eu pudesse abrir os olhos, ver um pouco de luz, sentir a brisa. “a brisa que agitava as folhas verdes/ fazia ondular as negras tranças”. Onde ficaram perdidos estes versos de Castro Alves? Onde ficou perdida minha infância? Meus irmãos, meus avôs, minha mãe, onde estarão? A fazenda Veneza, o abieiro, a groselheira, o burro Cabrito, onde estarão? Tomar leite na hora da ordenha, com o calor fumegante do úbere das vacas. Caçar saracuras por entre os lírios-do-brejo, chupar laranja cravo ou caju, comer jaca. De onde me vêm essas lembranças?

A ingazeira se debruçava por sobre o remanso que o riacho fazia – era a nossa piscina – do alto dos seus galhos pulávamos n’água, para subir e repetir a brincadeira vezes sem conta. Tinha um carneiro cujo esporte preferido era dar marradas… em mim. Como corri dele, era um pai-de-chiqueiro que se chamava “Licutisco”. Mas isso foi em outra fazenda, “São Bernardo”, que era do meu pai. Mas meu pai morreu muito cedo, quando eu tinha apenas quatro anos – o que é muito cruel, pois quase não me lembro de suas feições, só do afeto que ele nos dedicava. Mas isso é tão pouco… Ser amado só não é tudo, é preciso que nos lembremos do brilho nos olhos de quem nos ama, quando nos estão amando.

Da fazenda Veneza, onde fui criado – depois de órfão –, havia uma vaca que se chamava “Gameleira”. Apesar de dócil, acossada pelo vaqueiro, um dia ela me atropelou, dando um susto tremendo em minha mãe. Mas as mães se assustam sempre com as travessuras dos filhos. Gameleira era uma vaca mocha-banana, como dizíamos, pois seus chifres não estavam soldados aos ossos da testa, pendiam, presos apenas pelo couro, como dois brincos córneos. Lembro-me perfeitamente de sua testa saltada, característica do gado gir, quase se encostando aos meus olhos, o que teria arrancado do meu medo-pânico, segundo meus irmãos, o grito: Ai, mãe, Gameleira! Minha mãe morreu aos 96 anos…

Agora começo a descer. Será que me colocaram em um elevador? Para onde me levam? Enquanto desço continuo pensando em Gameleira, como ela teria morrido? De velhice no pasto da fazenda, mordida por uma cobra, em um açougue? Mas eu continuo descendo.

Que estranho… Escuto palmas. Por que me aplaudem? Eu, que durante toda a minha vida tanto desejei ser admirado, de ser – até mesmo discretamente – aplaudido, mas nunca recebi um só gesto de admiração, que só recebi vaias mesmo quando acreditava ser digno de um pequeno afago, sempre vaias, principalmente da vida. Por que tantos aplausos? Por que será que me dão na morte o que me negaram na vida.

Será que não vêem que agora é tarde demais?

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