(Pequenas histórias de Valença – Amália Grimaldi)

guaibim

Flor, sal e vento – Areias movediças. Ao contorno suave das manhãs de agosto, novas dunas certamente surgiriam. Tempo dos ventos. Folhas são arrancadas. Mas, no abrandamento do elemento temporal, o vento, como tudo na natureza, também sabe descansar, e aí então, chegará a calma da brisa, a jovem menina que de mansinho, serelepe, enfia-se por entre palmas de coqueiros, para nosso deleite. Mansa e passageira, também é música da tarde no sopro do elemento poderoso, e que na vontade do ser humano, nunca poderá ser roubado. Sei que existem areias aprisionadas, mas nunca ouvi falar o mesmo do vento.

No vasto areal do Guaibim, suas dunas curvilíneas se destacam, oportunamente abraçadas pela vegetação costeira. São cipós de lianas salpicados por gentilezas breves: delicadas flores lilases. Pouco duram, logo murcharão ao leve toque do vento. Aqui e ali, veem-se cactos espinhosos, às vezes floridos, mostram-se distintamente belos, na rudicidade contrastante deste meio arenoso.

Nessa paisagem de mar a linha do horizonte é intenção nãodissimulada, uma emoção que nos toca. Aí ouço cores palpáveis, e enxergo algo mais além do seu simulacro. Viajo nessa linha ao melhor destino, contorno de um pretenso real. Especulo o visível e capturo o momento que foge ao banal. E, neste imediato sensível, o íntimo dessa natureza já ferve exultado.

– Estou chegando… Avisava de antemão. Certezas. O pesado portão de ferro já estaria aberto. E o cão da família já contido para não molestar com sua habitual alegria em lambidas. Abraços e mimos. Nancy, sorriso nos lábios e em abraço fraternal fazia-me bem-vinda. Danilo,logo juntar-se-ia a nós. Casal perfeito. Filhos e netos, todos já crescidos e bem criados. Assuntos sem fim. Sempre tínhamos muito a contar.

O vento das tardes… O barco longe… Ah, e a vista! Ao longea silhueta do farol do Morro, mas o olhar da gente se perderia mais adiante, no belo paredão da falésia. Convergente, em seu momento supremo, quando o Sol a despedir-se-ia daquele dia bem trabalhado, seguia a derramar suas belas cores rumo à gruta calada da noite. Sem dúvida, são as passagens do poente as sílabas tônicas de uma rima, remanescente de um poema sem pressa, criação espontânea que certamente não se acabaria no sétimo dia. Tudo isto só para enfeitar e enobrecer nossos encontros à varanda sombreada, bem pertinho da praia. Naquelas tardes quentes de sábado, água de coco e conversa boa. Da varanda alta costumávamos partilhar o deslumbramento de um jardim luminoso. Flores, frutos e folhagens diversas, não faltando a presença exuberante de bromélias gigantes. Nancy sempre se dedicou ao jardim – seu poema em cores. Costumava dizer. De vez em quando, Seu Antônio viria podar os coqueiros e revirar a terra, adubar as plantas, enfim, realizar tarefas mais árduas.

Uma manhã de segunda-feira, Nancy faria uma viagem a Santo Antonio de Jesus, ‘só para fazer uma surpresa a alguém… ’ Falava-me ela ao telefone. Justamente, resolveu presentear Seu Antonio, o modesto trabalhador, já em idade avançada, com uma bicicleta. E este, de tão contente, via-se engasgado, nas palavras de agradecimento que lhes custaram a sair. É que, de tão contente, mas na gagueira costumeira, ora galopante, mais parecia querer sufocá-lo. Mas, em tal esforçado gesto, se fez agradecido. Nancy, pessoa generosa, na verdade nunca economizou palavras, a de seu nativo idioma. Foi professora de inglês, minha e de muita gente mais aí em Valença. E digo mais, ainda temos muita história boa para contar.

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