Eduardo Pereira - matutando

Um jovem, com idade aproximadamente de vinte anos, foi visitar uma tia, em cuja residência já se encontravam os pais do mencionado adolescente. Ao tentar puxar um diálogo com o infante, a tia lhe indagou: “Você está estudando?”. O jovem, cujo nome ocultaremos por razões óbvias, de pronto respondeu: “Mais ou menos”. Insistiu a tia: “Porque mais ou menos meu filho?”. Sem pestanejar, a resposta foi imediata: “Porque eu não gosto de estudar”. Na tentativa em estabelecer um possível diálogo, a tia lhe perguntou: “Você gosta do que então?” Desculpem o termo, na “lata” o jovem disse: “Gosto de celular”.

Ninguém nos contou, ouvimos essa conversa. Para nossa surpresa, os pais do jovem, nada disseram, num profundo silêncio, que poderia a priori ser interpretado como: “Quem cala consente”. A tia muito menos, de igual modo permaneceu calada. Àquela altura, arriscamo-nos, acredito que em vão a citar a seguinte frase: “Jovens da minha terra, três coisas eu vos digo: a primeira é estudem, a segunda é estudem e a terceira é estudem”. Em que pese a palavra estudem ser repetida hipnoticamente por três vezes, entretanto acredito que diante da firmeza do jovem na afirmação de que não gosta de estudar, a palavra estudem repetidamente citada, não surtiu  efeito algum na mente do moço, pois a princípio não estava este sugestionável.

Vale aqui dizer que nosso personagem, muito embora seja um estudante da escola pública, teve e tem, no nosso entendimento, as condições para estudar, haja vista ser morador de bairro muito próximo ao centro da cidade, frequentar a escola durante o dia, mesmo sendo um maior de idade, não necessitar trabalhar para comer e vestir-se, etc.

Sob o ponto de vista das mais diversas ciências, aí se incluindo a Pedagogia, a Sociologia, a Antropologia, a História, e Economia, etc., existem as mais diversas explicações por essa ojeriza aos estudos por parte desse e de tantos outros jovens e outras pessoas maduras no Brasil. Entretanto, quando se ouve, como diz Sr. Bié do Maruim: “Na tampa da cara”, um jovem que deveria estar na universidade, ou na pior das hipóteses, se preparando para o ENEM, dizer que não gosta de estudar, para quem andou à pé para a escola por anos, viu a família fazer os maiores sacrifícios financeiros para mantermos na escola,  numa época em que estudar era um privilégio, como foi o nosso caso, é uma constatação lamentável.

Vale dizer que consoante a Associação Brasileira de Difusão do Livro (http://www.abdl.com.br/noticias/index.php?noticia=214&titulo=Brasil%20entre%20os%2050%20pa%EDses%20com%20h%E1bito%20de%20leitura): “Estudo da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) referente ao hábito da leitura em 52 países revela que o Brasil ocupa a 47ª posição. Mais do que isso, mesmo tendo elevado a média de livros que os brasileiros leem por ano de 1,8 para mais de quatro nos últimos anos, o ranking é um sinal de alerta para que haja maior empenho em relação à Educação”.

Com isso, não pretendemos nos alinharmos com aqueles que defendem o mito da meritocracia, pois como acima citado, a leitura e consequentemente o gosto por estudos, não fazem parte dos hábitos nacionais, muito pelo contrário. Exemplificando, duas pessoas conhecidas nossas, que exercerem cargos considerados relevantes, um inclusive já aposentado e outro em vias da aposentadoria, explicitamente nos declararam, em tom de gabolice, nunca terem lido um livro. Evidenciamos que esses indivíduos e são os milhares, possuem o que chamamos de acessibilidade ao mercado de trabalho, notadamente por descenderem de famílias abastadas e com “prestígio social”, o que vale dizer, uma rede de contatos composta por pessoas influentes, os chamados “pistolões”, o que certamente lhes possibilitou o acesso a cargos de tamanha envergadura e, diga-se muitíssimos bem remunerados.

Certamente a maioria das pessoas que nunca leram um livro (e são milhões de brasileiros), não confessará esse descalabro, como fizeram esses nossos dois amigos e tantos outros que já foram objetos de crônicas nesta coluna. Já presenciamos numa dada repartição pública, livros (uma biblioteca inteira) serem encaixotados e devolvidos para a Capital, como se fosse um monte de entulhos. Biblioteca de universidade, com excelente acervo, quase todos sem qualquer preenchimento nas respectivas fichas, evidenciando que nunca foram lidos. Soubemos que numa dada cidade baiana, o diretor de uma faculdade, por sinal um renomado professor, foi enxotado por pedir às autoridades competentes uma biblioteca para determinado curso.

Entretanto, vale salientar que nosso personagem não pertence à classe média local e certamente terá sérios problemas para a inserção social; não descende de família influente, portanto não possui uma rede de contatos que lhe possibilite acesso à ocupação de cargos. Desconhecendo tal aspecto, o nosso jovem assim como outros milhões, não sabem e nem querem saber que, o suposto caminho para inserirem-se no mercado de trabalho, a priori dar-se-á, pelos estudos de forma dura e persistente, quiçá via concurso público de provas e de títulos e quando se fala em títulos, acreditamos começar-se pela pós-graduação lato sensu .

Por um lado, não se trata de “atiramos pedras” no jovem desta história  muito menos de uma tentativa de civilizarmos a vítima, pois constatamos que esse adolescente é fruto de uma construção histórico-social. Por outro lado, torna-se dura essa constatação que, preferíamos não fosse um caso típico e sim um caso atípico e, por derradeiro, não conseguimos isentá-lo de uma corresponsabilidade com seu statu quo, por entendermos que, em que pese a dominação, o indivíduo tem o dever de lutar por sua emancipação, sócio, cultural, intelectual e econômica. Com esse comportamento, resultante da dormência social, esse rapaz, certamente com a sua conduta,  reforça as estruturas da dominação.

Entretanto, cabe aqui ressalvar a existência de diversos jovens, porém em número bem reduzidos que, “ralam a cara” nos livros e assim, conseguem migrar de classe social, na chamada capilaridade social. Anda bem que existem jovens com condutas diferentes do nosso personagem.

*Publicado na edição impressa nº 604, do jornal Valença Agora

 

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