Guardas-civis retiraram deles mantas e barracas ‘em nome de uma política higienista’ da Prefeitura de São Paulo

 

São Paulo já registrou cinco mortes suspeitas de moradores de rua por causa do frio desde quinta-feira da semana passada: duas em Santana, Zona Norte, uma na Avenida Paulista, na região central, uma no Bom Retiro, no centro, e outra no Belém, Zona Leste. A causa oficial da morte só pode ser confirmada após o resultado da autópsia, feita pelo IML (Instituto Médico Legal), que até a última segunda-feira (13) não havia se pronunciado sobre os casos específicos.

As operações de zeladoria, conhecidas popularmente como “rapa”, são conhecidas de quem sofre com as baixas temperaturas.  Na Praça 14 Bis, Bela Vista, região central, os moradores de rua já estão acostumados a, pouco antes das 7h, se levantarem para desarmar suas “malocas” (abrigo com caixas de papelão para proteção do frio) antes que o rapa chegue.

Caso contrário, eles afirmam que GCMs jogam tudo fora.  “Só esse ano já ocorreu três vezes. Em uma, levaram até meu RG, dentro de uma mochila”, contou  Marlaine Regina Sposito, de 41 anos, vivendo há um ano na Praça 14 Bis. “O rapa chega e manda a gente tirar tudo de debaixo da laje de onde dormimos”, acusou.

Marlaine, que está tratando uma pneumonia, fica sem proteção do frio durante o dia. “O rapa  manda a gente e ir para o outro lado da praça. Se chove, paciência, a gente tem de ficar no frio. Sem cobertura”, fala a mulher, como se não houvesse outra alternativa.

“Eles levam o pouco que a gente tem. E nesses dias tem feito muito frio. Venta demais e a gente quase congela. Aí acordamos  com medo de perder nossas coisas na manhã seguinte”, disse José Carlos Gomes, 56, há cinco anos na rua.

Segundo o padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua, o rapa tem retirado “tudo que os moradores de rua possuem.” “Eles têm retirado cobertores, colchões e o resto que essa população tem para se proteger do frio. O argumento que eles dão é que estão fazendo ‘limpeza pública’”, afirma o representante da igreja.

Marlaine (de gorro) ao lado do colega Jair de Moura na Praça 14 Bis / Almeida Rocha

Marlaine (de gorro) ao lado do colega Jair de Moura na Praça 14 Bis / Almeida Rocha

João Clemente de Souza Neto, cientista social e professor do Mackenzie

Esses depoimentos revelados pelo DIÁRIO mostram que a assistência à população de rua na cidade de São Paulo tem praticamente um caráter de polícia, e não social. A GCM não deveria fazer as abordagens aos moradores de rua, ela não é preparada para isso. Seria diferente se houvesse alguma transgressão de lei, mas se a pessoa está sentada ou deitada em um local que o poder público considera não ser adequado, quem deveria fazer a abordagem e tentar o convencimento para que aquela pessoa saia, são os agentes da assistência social.

A GCM tem mais o caráter de repreensão do que de pedagógico. E a partir do momento que alguém tira o cobertor de um morador de rua, que é sua posse, está tirando o que pertence à pessoa. E se ela não roubou aquilo, a atitude está completamente equivocada.

Arquidiocese de São Paulo cobra providências urgentes

A Arquidiocese de São Paulo, em nota, expressou “profunda tristeza e preocupação pelos quatro moradores de rua que morreram nas noites da semana em que a cidade Paulo enfrentou uma forte onda de frio”.

Segundo a Arquidiocese, os mortos foram identificados como João Carlos Rodrigues, de 55 anos, encontrado perto da Estação Belém do Metrô, e  Adilson Justino, achado na Avenida Paulista. Outras duas pessoas ainda aguardam reconhecimento.  “Aos poderes públicos, apelamos a que se realizem ações emergenciais de socorro aos moradores de rua durante os dias frios e se promovam políticas estáveis e permanentes para assegurar a dignidade dessas pessoas”, continua a nota. “O ‘problema dos pobres’ desafia toda a cidade de São Paulo a se mostrar acolhedora e sensível diante das necessidades do próximo”, destacou.

Débora Moreira Silva, moradora de rua de 36 anos

Débora Moreira Silva, moradora de rua de 36 anos

‘Uso calça no lugar de um gorro’

Vivo na rua desde os 15 anos. Hoje tenho 36 anos. Já estou até acostumada com a dor de cabeça que o rapa dá para a gente. Há três semanas, estava com três sacolas e meus cobertores quando o pessoal da Prefeitura e da GCM chegou. Era pouco mais de 7h. Puxei o que deu, primeiro meus cobertores, por causa do frio que sabia que iria passar, depois as sacolas. Não deu para pegar todas. Na que foi embora com o caminhão do rapa, tinha meu RG e a maior parte dos meus agasalhos. O RG vou ter de ir ao Poupatempo para fazer outro. Estou esperando o pessoal da (Secretaria Municipal de Assistência Social), porque sem eles a gente tem muita dificuldade de tirar um documento novo.

Agora, os agasalhos eu perdi. Estou usando uma calça moletom na cabeça, porque o gorro que eu tinha foi embora na sacola (recolhida pela zeladoria da Prefeitura). E o agasalho com gorro eu dei para o meu marido, pois quase todos os que ele tinha estavam naquela sacola também. E isso não é novidade. Ano passado, o rapa tomou seis RGs meus. Hoje quando eles chegam, a gente precisa esconder nossas carroças o que a gente tem para não levarem embora.
Moradores de rua recusam albergue por, segundo eles, falta de segurança

Malabarista abandonou centro de acolhida em Santana depois de ter tido os seus pertences furtados

A maior parte dos moradores de rua com quem o DIÁRIO conversou ontem admite que prefere passar suas noites na via pública do que em albergues públicos. Entre os motivos estão a impossibilidade de dormir no mesmo edifício do que o parceiro (no caso homens e mulheres) , a distância dos equipamentos da Prefeitura e a insegurança desses equipamentos de proteção.

O malabarista e pirofagista Fabiano Ferreira de Sousa, de 30 anos, dois deles na rua, afirma preferir dormir debaixo do canteiro central da Avenida Cruzeiro do Sul, em Santana, na Zona Norte, pois se sente inseguro dentro dos albergues.

Fabiano leva consigo o B.O. do furto no albergue / Almeida Rocha / Diário SP

Fabiano leva consigo o B.O. do furto no albergue / Almeida Rocha / Diário SP

No último dia 25, ele teve furtada, dentro de prédio da Prefeitura na Avenida Zaki Narchi, no mesmo bairro, a mochila com o pouco dinheiro conquistado no dia no farol, documentos e até uma carteira da biblioteca que frequentava, além de algumas mudas de roupa.

“Fui dormir e deixei a minha mochila do lado da cama. No dia seguinte, eu acordei e não a vi mais. Perguntei para quem estava ao lado, mas ninguém tinha visto quem pegou. E o albergue é cheio de câmeras, que aparentemente não servem para nada. Fui na delegacia e fiz um boletim de ocorrência, mas continuo sem nada”, desabafou. “Por isso é melhor dormir na rua. Aqui, pelo menos, eu conheço as pessoas que dormem do meu lado.”

A Prefeitura informou que o centro de acolhida de Santana conta com bagageiro justamente para que os moradores possam guardar seus pertences e  a equipe de segurança faz rondas frequentes.
RESPOSTA DA PREFEITURA

Vagas são suficientes

Em nota, a Prefeitura informou que não há falta de vagas para moradores de rua em albergues. “E  quando os abrigos de uma região atingem a capacidade, os agentes encaminham os interessados a unidades de outras áreas da cidade”, afirma a nota.   “Nesta noite (nesta segunda), por exemplo, cerca de 300 vagas ficaram ociosas”, disse a administração.

A nota ainda informou que o comando da GCM estabelece que, no trabalho de apoio à zeladoria feito pelas subprefeituras, fica proibido recolher bens pessoais de pessoas em situação de rua que não sejam produtos de ilícito, tais como: documentos; sacolas com pertences de uso visivelmente de uso pessoal; medicamentos; livros; malas ou mochilas com roupas.

Sobre as denúncias, a Prefeitura orienta as vítimas a reportar os fatos à Corregedoria-Geral da GCM para que seja aberta uma investigação.

 

Fonte Diário SP

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