“A Costa do Dendê é uma região com uma vocação náutica incomparável”, afirma especialista

A Câmara de Turismo da Costa do Dendê articulou a construção do Plano Náutico da região, que está sendo executado pelo Consultor José Zacarias, a pedido do SEBRAE, que possui representação na Câmara e está investindo na demanda. José Zacarias é economista, velejador e dono de uma empresa de consultoria, a Proset (Projetos e Serviços Técnicos). Sua ampla experiência em náutica está sendo agora utilizada no diagnóstico náutico da Costa do Dendê. Leia a seguir, a entrevista com Zacarias sobre este trabalho que ele está desenvolvendo e suas impressões acerca da atividade e cultura náutica na região.

Zacarias, qual a importância desse Plano e como ele está sendo construído?

Essa iniciativa é fruto de todo esse trabalho que está sendo feito na Câmara do Turismo da Costa do Dendê que acertadamente identificou as potencialidades dessa região, e é evidente que uma das grandes potencialidades dessa região é a atividade náutica. Um plano náutico é algo grande, que tem uma envergadura e que leva um tempo, por isso mesmo, e pensando em ter um produto que pudesse ser utilizado de forma rápida e direta, produzindo menos papel e mais ações, nós começamos a definir prioridades e definimos como prioridade a elaboração de alguns projetos. Projetos esses que se constituiriam de diagnósticos para entendermos melhor a realidade local, e, a partir desse diagnóstico nós vamos propor uma série de medidas para melhorar o que já está bom, corrigir o que não está bom e incentivar novas ações e novos procedimentos.

Não temos na nossa região uma rotina de regatas, nenhuma atividade nessa área. Quais as consequências de termos aqui anualmente dois eventos nessa área. Que tipo de benefício isso traz e qual seria a transformação que essa região ganharia com essa ação?

Primeiro de tudo eu queria registrar que a Costa do Dendê é uma região com uma vocação náutica incomparável. A gente não pode esquecer que tudo aqui está em torno da náutica, todo meio de transporte, todo lazer. Cairu é o único município arquipélago do país, todos os transportes de pessoas, de materiais, todos os serviços são prestados através de embarcações. Quando você fala de regata é bom que a gente lembre o seguinte, isso é uma coisa da nossa cultura também, aqui sempre existiram regatas de saveiros, regatas de canoas, agora as regatas ganham um cunho mais moderno, as regatas se transformaram em grandes empreendimentos, em grande negócios, que apenas pra não deixar de falar e não ser injusto, nós já temos regatas sendo feitas aqui, regatas de monotipos como Lazer e pequenos catamarãs acontecem na região do Morro de São Paulo. Há dois anos a nossa empresa criou uma regata de veleiros de Oceano de Salvador até Cairu e outros eventos já tem acontecido nessa área náutica. As regatas são os verdadeiros catalisadores de exposição na mídia, de geração de emprego e renda, na medida em que você saiba orientar esses eventos para a localidade fazendo com que o consumo dessas pessoas que vem na regata, que é um pessoal com nível de renda favorável, possa ser feito na região e na localidade onde a regata chega. Então existe uma potencialidade imensa pra atrair regatas, contudo existe também necessidade de melhorar a infraestrutura. Regatas maiores requerem infraestruturas melhores e maiores para serem aportadas.

A Costa do Dendê, não é que ela tenha uma potencialidade para o náutico, a Costa do Dendê é uma região náutica, com esse discurso e esse trabalho aí. Como então, essa comunidade da Costa do Dendê deve se comportar para que ela venha se auto beneficiar com regatas e com ações ligados à área profissional dessa atividade turística?

A náutica está no sangue das pessoas daqui, vamos então trabalhar esse segmento acreditando nele, porque o que eu posso dar como exemplo e isso é factual, quem já viajou bastante sabe que várias localidades do mundo sobrevivem única e exclusivamente da atividade náutica. Na região do Caribe, toda ela é assim, na região da Polinésia e em várias outras regiões do mundo tem na náutica a sua vertente principal de negócios. Isso pode ser feito aqui também da mesma maneira, porque nós temos potencialidade e nós temos a cultura náutica da região. As pessoas são ligadas ao mar e sabem lidar com esse elemento.

O SEBRAE realizando esse trabalho vai despertar também para região a atenção de investidores e, se isso não for ordenado por um público dessa região, outros investidores externos certamente virão se beneficiar aqui. Qual o recado que o senhor deixaria para as pessoas mais afortunadas ou os empresários da região sobre esse nicho de mercado?

O cuidado que a gente tem que tomar é participar, nós estamos fazendo esse trabalho para a Câmara que por via de consequência é para a comunidade. Quando houver as reuniões comunicando os resultados do trabalho, os resultados do diagnóstico, quais as perspectivas de investimento, é interessante que os empresários, as pessoas que trabalham no ramo, participem. As prefeituras estarão convocando para mostrar o resultado desse trabalho e o primeiro procedimento para você participar é conhecer, você não participa do que você não conhece. Primeiro passo é conhecer o projeto, conhecer o que ele sinaliza e em cima disso, passar a se interessar e colher mais informações. O mercado hoje é mundial e competitivo, se nós não fizermos, alguém virá para fazer e o nosso interesse é que isso seja desenvolvido aqui na região.

De que forma o pequeno comerciante, o barqueiro, o supermercado, esse comerciante que forma essa sociedade poderia contribuir com esse novo nicho de mercado que vai se profissionalizar na nossa região?

Analise bem esse mercado, é o que eu diria, veja quais são as suas carências. Vou citar um exemplo, será que nós contamos com todo o suporte necessário para prestar serviços na área náutica, tipo reparo e manutenção de fibra de vidro, reparo e manutenção de motores, principalmente porque aqui existem muitos motores de popa, nós temos aqui toda a oferta necessária de peças e serviços ou isso tem alguma dificuldade ou carência? Tem que se estudar essas questões e ao estudar essas questões o empresário vai descobrir os nichos favoráveis de mercado. Vamos nos profissionalizar para bem atender esse segmento que cresce a cada dia.

Nós somos conhecidos mundialmente como uma região construtora de embarcações. Essa região com essa profissionalização e ações voltadas para a náutica, esse ramo de atividade seria beneficiado, também diretamente com esse novo olhar ou não?

Se beneficiariam sim, eu tenho dois exemplos. Um deles é aqui em Valença, o estaleiro de Ralf que faz embarcações de diversos tipos e toda essa mão-de-obra e originária da região com essa cultura construtiva daqui. Se você vai pra Camamu você também tem o exemplo do Estaleiro Camarada, em Cajaíba você tem dezenas de estaleiros produzindo, e alguns desses estaleiros já estão produzindo esse mesmo tipo de embarcação com outra técnica, ou seja, você mantém sua cultura e modifica apenas a técnica.  A qualidade construtiva desses construtores, apenas com uma pequena ajuda tecnológica se torna atual e moderna e possível de ser vendida em qualquer mercado.

Suas considerações finais

Eu agradeço a oportunidade ao SEBRAE pela confiança, a Câmara de Turismo com seus respectivos representantes pela confiança e pela sensibilidade de enxergar esse segmento da economia náutica como um segmento da região. Ou seja, eu acho que eles estão indo nos anseios, na vocação, na tradição e no espírito das pessoas dessa região ao tentar desenvolver a náutica aqui, é como que favorecer oportunidade para que quem trabalhe nesse segmento, trabalhe feliz, talvez um operário daqui, trabalhador da região de Valença não se sinta tão bem numa fábrica dentro de quatro paredes, mas talvez ele se sinta muito bem pilotando sua embarcação e levando turistas para as praias maravilhosas que existem por aqui.

 

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