Cultura, ontem, hoje e sempre – (VI) Jornal Valença Agora 5 de dezembro de 2024 Colunistas Define-se existir estar em movimento num determinado espaço e tempo, transforma-lo através dos gestos, da escolha e atribuição de significado e valor a estímulos decorrentes da bagagem cultural do meio social graças às atividades perceptivas, da intercomunicação, do conjunto de rituais corporais em relação dos outros, dos jogos sutis da criatividade, da expressão dos sentimentos, da exploração dos sentidos da corporeidade que vai construindo seu mundo e definindo a extensão da sua experiência. Repertório das brincadeiras enquanto atividade livre, recreativa das condições materiais necessárias que vão definindo a organização e desenvolvimento dos jogos, enfim, conjunto de ações lúdicas constituindo uma fonte inesgotável de aprendizagem. Estimulam e viabilizam a psicomotricidade com os aspectos emocionais, cognitivos e competências. Pertencem, então, à tradição oral na sua concepção sincrética recriando a ação da educação informal que acabam por materializar os jogos multiculturais enquanto recurso didático de uma educação do respeito à diversidade sociocultural. Você se lembra? “Três, três passará, derradeiro ficará”. Há alguns anos atrás se cantava este refrão. Era como uma reza antiga que nos foi ensinada pelos avós. Pelos amigos mais velhos. Na verdade, não há certeza de quem nos ensinou. Temos a certeza de que nós aprendemos como se a cantiga tivesse nascido junto conosco. Vezes pegamos cantando brincando com outro grupo de crianças. A rua era nossa, não havia asfalto ainda, mas era tão imaginativa essa infância que as coisas passavam desapercebidas. E quando chovia, queríamos era o rio de enxurradas na qual se fazia inúmeras cachoeiras pelos buracos em sua trajetória – verdadeira criatividade para driblar os tamanhos acidentes geográficos. Tudo era festa: a alegria do bate-lata, chicotinho queimado, picula, esconde-esconde, cozinhados, prenda, cabra cega, boca de forno, eram saltos incríveis sobre a areia. Éramos tudo que a imaginação podia se tornar brincadeira e que o tempo não bastava. Somos do interior, nordestinos e essa são nossas raízes comuns. Entorno desse denominador comum que dialogamos, refletimos o que nos tornamos, nos forjamos e nos descobrimos em cantigas, histórias, contos, crenças e esperanças. Fizemos da infância a imagem e semelhança da nossa própria identidade. Não podia faltar a alegria da folia de carnaval, acontecimento festivo que precede a quarta-feira de cinzas, durante a qual, com o afrouxamento das normas morais acontece o irromper de recalques por meio de danças, cantos, trejeitos, indumentária diversa do habitual. Nesse desenrolar festivo que surge o Bloco dos Caretas. Folguedo popular presente na confraternização festiva. Todavia, temos a celebração dos três santos e com eles o louvor do espírito profano. O dia maior é sem dúvida a véspera de São João. Festa rica e movimentada que se inicia com as trezenas de Santo Antônio prolongando-se até São Pedro. O dia de São João conhecido como o dia das fogueiras e foguetes é a manifestação do sagrado cristão. Em volta das fogueiras cantaram e cantam por anos esta brincadeira: “Capelinha de melão é de São João, é de cravo é de roda é de manjericão”. Nas roças o trabalho é intenso para os preparativos dessa noite, lenhas são cortadas, árvores arrancadas para enfeitar a fogueira, todas as vestes de praxe empolgam o afinar de violas, zabumba, pandeiro, triângulo e, claro, a velha sanfona que dá o toque do rebolado da dança. A tudo isso não pode faltar as quadrilhas que expandem toda a sua euforia cerimonial do santo casamenteiro que também faz parte das celebrações. Muitos outros acontecimentos festivos fazem parte da variedade de fenômenos sócias, a saber: malhação de judas, quebra pote, boneca de piche entre outros que incorporam a produção cultural como representação, isto é, as relações que se estabelecem entre a realidade social e as estruturas mentais (elaboração simbólica) configurando de forma peculiar as suas práticas sociais e com ela a sua organização espacial. Enfim, a materialização destes acontecimentos festivos, passa indubitavelmente pela consideração e valoração de sentido do seu contexto histórico que se confunde na relação sincrética entre o sagrado e o profano, o econômico e o lazer, o tempo e a ritualização, o espaço e a integração de relações dialógicas que configuram o estar no mundo determinando o comportamento subjetivo que recepciona, se integra e que apraz na reprodução de valores e normas que expressam permanentemente a confirmação da sua diferença, estruturando, por isto, estratégias de um modo de vida, de formas de composição social frente ao conflito socioeconômico e cultural exprimindo um traço essencial de resistência e ao mesmo tempo, a sua integração à expressão da cultura em tempos de globalização. Eis o pequeno retrato da nossa polissemia cultural enquanto nossa história continua......... Deixe uma resposta Cancelar resposta Seu endereço de email não será publicado.ComentarNome* Email* Website