Crise devastadora ameaça a principal atividade econômica do Baixo Sul da Bahia Jornal Valença Agora 2 de março de 2026 Colunistas A cacauicultura é uma atividade agrícola de grande importância social e econômica na Bahia. Desenvolve-se em paisagens marcadas por relevos suaves e encostas íngremes, presentes nos municípios distribuídos por oito Territórios de Identidade, que se estendem do Recôncavo ao Extremo Sul. As características sociais e econômicas desses territórios são distintas. Por isso, a relevância do cacau varia de uma região para outra, seja na composição do PIB local, na geração de empregos, na renda per capita, na participação das exportações ou no grau de industrialização. Os Territórios Baixo Sul e Litoral Sul concentram aproximadamente 70% da produção estadual de cacau, conforme demonstrado na Tabela 1. Esse dado evidencia a centralidade dessas regiões na estrutura produtiva da cacauicultura baiana. Entretanto, o impacto econômico decorrente de preços aviltantes — que não remuneram adequadamente o produtor — tende a ser mais devastador no Baixo Sul, em razão de suas características estruturais específicas. Inúmeros são os motivos que nos remetem a uma dedução lógica sobre o impacto que pode ser provocado pela crise que se aproxima de forma sorrateira e impiedosa. Entre as regiões produtoras, o Baixo Sul destaca-se por apresentar maior dependência econômica da cacauicultura. Em 2024, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) o cacau gerou um valor de produção equivalente 2,15 bilhões na economia do Baixo Sul da Bahia. Enquanto a produção de banana como segunda atividade agrícola rendeu R$ 456.942.000,00 ( Quatrocentos e cinquenta e seis milhões e novecentos e quarenta e dois reais). Diferente dos outros territórios, o Baixo Sul caracteriza-se com municípios em que a população rural supera a urbana. De acordo com o censo demográfico de 2022 seis de seus municípios têm população rural superior à urbana, sendo considerados predominantemente rurais, segundo a classificação da OCDE. Esses seis municípios, com mais de 50% da população na zona rural, foram responsáveis pela produção de 21.500 toneladas de cacau em 2024. A agropecuária é o setor que apresenta o maior valor adicionado na composição do Produto Interno Bruto (PIB) de todos os municípios do Baixo Sul. Enquanto no Litoral Sul, de modo geral, os setores secundário e terciário superam a agropecuária na composição do PIB, indicando uma estrutura econômica mais diversificada. Nos demais territórios produtores de cacau, embora a crise também produza efeitos negativos, sua repercussão tende a ser relativamente menor, em razão de fatores como maior diversificação econômica, presença de outras cadeias produtivas relevantes ou menor dependência proporcional da renda gerada pelo cacau. No Extremo Sul, as culturas do café, da cana-de-açúcar e do mamão figuram entre as principais atividades agrícolas em termos de importância econômica. No Costa do Descobrimento, o café e o mamão figuram entre as principais atividades agrícolas, enquanto a silvicultura assume elevada relevância na estrutura produtiva territorial. Além dessas atividades agrícolas, ambos os territórios, favorecidos pelas condições edafoclimáticas, desenvolvem importante atividade pecuária, com rebanho superior a 1,6 milhões de bovinos, segundo dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI). O Médio Rio de Contas, terceiro maior produtor de cacau, com 22.686 toneladas, juntamente com o Vale do Jiquiriçá, compõe um conjunto territorial cujos municípios situam-se em áreas de transição com o bioma Caatinga. Ambos apresentam características geoclimáticas semelhantes e possuem estrutura produtiva diversificada, destacando-se, além do cacau, culturas como maracujá, banana e mandioca. Segundo dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), as exportações desses dois territórios, concentradas em minérios, calçados e carnes, totalizaram US$ 388,2 milhões, em 2023. A atividade pecuária também possui presença relevante, com rebanho que se aproxima de 700 mil cabeças de bovinos distribuídas por diversos municípios. O Médio Sudoeste da Bahia, menor território em extensão, tem como principais atividades agrícolas o cacau, a banana e o café. Entretanto, responde por apenas 1,2% da produção estadual de cacau, conforme apresentado na Tabela 1. O valor da produção agrícola do território é o menor entre os Territórios de Identidade produtores de cacau. Em contrapartida, a pecuária assume papel de destaque: o rebanho bovino soma aproximadamente 1.100.000 cabeças, volume equivalente ao do Extremo Sul, apesar de o Médio Sudoeste possuir menor população e menor extensão territorial. Na pauta exportadora, destacaram-se os segmentos de carnes e calçados, que totalizaram US$ 18,7 milhões em 2023. O Recôncavo tem, tradicionalmente, como principais atividades agrícolas as culturas do fumo, da mandioca e da laranja. Embora o cacau não possua a mesma relevância social e econômica observada em outras regiões, os produtos da pauta exportadora geraram US$ 51 milhões em receitas para o território. Baixo Sul da Bahia — Segundo dados da Produção Agrícola Municipal (PAM/IBGE, 2023), o território apresentou o maior volume de produção de cacau do estado, com pequena diferença em relação ao Litoral Sul. Possui extensão territorial de 7.582 km², sendo o cacau sua principal atividade econômica e social. Para fins comparativos, o Estado do Pará registra 18.140 estabelecimentos produtores de cacau, enquanto o Baixo Sul contabiliza 25.690 unidades. O elevado número de estabelecimentos produtores de cacau no Baixo Sul evidencia uma estrutura fundiária caracterizada pela presença de milhares de produtores familiares que residem e desenvolvem suas atividades produtivas na zona rural. O número de estabelecimentos ou unidades produtivas de cacau, superior ao do Estado do Pará, revela a existência de uma estrutura fundiária, onde residem e trabalham milhares de produtores familiares. O Baixo Sul é o único território da Tabela 1 em que a agropecuária supera a indústria como principal atividade econômica em todos os municípios produtores de cacau. A pauta exportadora totalizou US$ 7,6 milhões, valor inferior ao registrado pelos demais territórios analisados. Concluindo, o Território de Identidade do Baixo Sul, mais que os outros territórios produtores apresenta maior dependência da cacauicultura sua principal atividade econômica. Os efeitos da crise causada por preços aviltantes, que não cobrem os custos de produção, tendem a ser mais intensos e disseminados no território. A crise econômica não afeta apenas o campo: ela traz desânimo, desemprego, fome e abandono de propriedades, acelera o êxodo rural e aumenta a violência, deixando marcas profundas nos povoados e cidades de municípios predominantemente rurais. A realidade do campo reflete-se, assim, em toda a sociedade, exigindo atenção e ação imediata. Deixe uma resposta Cancelar respostaSeu endereço de email não será publicado.ComentarNome* Email* Website Salvar meus dados neste navegador para a próxima vez que eu comentar.