Culminância reuniu instituições, representantes governamentais e trabalhadores da cultura marítima, fortalecendo a salvaguarda dos saberes tradicionais da construção naval em Valença

O Instituto Federal da Bahia (IFBA) – Campus Valença realizou no dia 26 de novembro a culminância do projeto de extensão “Educação Patrimonial: As Artes e Ofícios da Carpintaria Naval Tradicional pelas técnicas e métodos de seus trabalhadores”, reunindo representantes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), mestres da carpintaria naval, estudantes, professores, consultores e gestores municipais. A atividade marcou o encerramento de um processo de nove meses de oficinas, visitas técnicas e produção de um inventário participativo sobre os saberes tradicionais da construção de embarcações em Valença.

Estudantes bolsistas do Projeto de Extensão em Educação Patrimonial (Foto: Jornal Valença Agora)

A abertura foi conduzida pela professora Rebeca Vivas, coordenadora do projeto, que apresentou o percurso da iniciativa, sua dimensão social e o papel do IFBA na articulação entre mestres, comunidade e estudantes. Também esteve presente a professora Ava da Silva Carvalho Carneiro, da área de Psicologia, que compõe a coordenação dos trabalhos e o ponto focal do projeto no campus.

O evento contou com a participação do pró-reitor de Extensão do IFBA, Ivo Cardoso; dos secretários municipais Cristiane Oiticica (Pesca e Aquicultura) e Vidalto Oiticica (Turismo); de representantes da sociedade civil organizada, professores e bolsistas do projeto; de mestres saveiristas convidados; e dos técnicos e analistas do IPHAN. Além dessas presenças institucionais, participaram também mestres navais da própria região — carpinteiros, marceneiros e calafates — profissionais responsáveis pela preservação das técnicas tradicionais de construção de embarcações, que compartilharam experiências, histórias e saberes acumulados ao longo de décadas de trabalho.

Construtores navais parceiros na execução do projeto (Foto: Jornal Valença Agora)

O IPHAN foi representado por Kleber Mateus, Rebecca Guidi, da Superintendência do IPHAN na Bahia (SE-BA), e pelo historiador Danilo Gustavo, analista da Coordenação de Educação Patrimonial. Eles acompanharam a culminância e destacaram a importância do IFBA Valença ter sido uma das cinco instituições selecionadas em todo o país para compor a Incubadora de Projetos voltada à educação patrimonial.

Kleber apresentou o IPHAN, sua atuação e objetivos, enquanto Danilo explicou a proposta nacional da Incubadora de Projetos como estratégia de fomento e fortalecimento das políticas públicas educativas voltadas ao patrimônio cultural. Rebecca Guidi parabenizou o IFBA pela condução do trabalho e reafirmou que a Superintendência está à disposição para apoiar as próximas etapas do processo.

Representantes do IPHAN acompanharam projeto executado pelo IFBA/Valença (Foto: Jornal Valença Agora)

Consultor do projeto, Marcelo Bastos, contribuiu com sua experiência no ramo (Foto: Jornal Valença Agora)

O consultor técnico Marcelo Bastos, parceiro do projeto executado pelo IFBA, apresentou a dinâmica da construção de embarcações tradicionais e abordou o tema “Os saveiros e o patrimônio naval da Bahia”. Ele também destacou a importância de documentar e valorizar as técnicas dos carpinteiros navais e a necessidade de criar mecanismos que incentivem a continuidade desses saberes.

Durante as apresentações, foram exibidos ainda conteúdos sobre a construção, em Valença-BA, das réplicas internacionais da Pinta e da Nina, produzidas para a Columbus Foundation em 1991 e 2005. As embarcações tiveram custo estimado de 400 mil dólares e, segundo registros apresentados no evento, o investimento foi pago em aproximadamente dois anos, evidenciando a capacidade técnica e o reconhecimento internacional dos construtores navais baianos.

A coordenadora do projeto, professora Rebeca Vivas, explicou ao Jornal Valença Agora como todo o processo foi construído:

“O IFBA campus Valença foi contemplado com a possibilidade de participar da Incubadora de Projetos, que é uma iniciativa do IPHAN, de promoção de educação patrimonial. O nosso instituto foi apontado como potencial para desenvolver esse trabalho. Eu e a professora Ava tínhamos executado, em 2023, um projeto de extensão que envolvia reconhecimento, mapeamento e homenagem aos mestres, chamado Projeto Raízes. E desse projeto amadureceu outro, porque entendemos que era preciso ter um aporte mais substancial para avançarmos na documentação.”

Professoras Rebeca Vivas e Ava Carvalho coordenaram atividades do projeto (Foto: Jornal Valença Agora)

Rebeca detalhou o caráter participativo da metodologia:

“A ideia da educação patrimonial é fazer um inventário participativo, envolver a comunidade no registro e na valorização de saberes. Nós executamos o projeto durante nove meses, com oficinas baseadas em escutas. Os estudantes receberam um diário de bordo, visitaram estaleiros, oficinas, conversaram com os mestres. A partir das escutas, o material foi sistematizado e transformado no inventário escolar, entregue ao IPHAN.”

Durante o período de execução, 11 estudantes receberam bolsas – sete do ensino integrado e quatro do ensino superior – além de bolsas destinadas aos mestres envolvidos e à coordenação administrativa, cobrindo custos como transporte e materiais. Cinco mestres puderam participar diretamente contribuindo com suas experiências.

Rebeca ressaltou a importância do reconhecimento institucional:

“A visita do IPHAN à nossa escola é prova de que o nosso projeto foi bem visto. O IPHAN disse que o que nós produzimos textualmente já serve para um processo de salvaguarda desses saberes, e isso significa muito. Agora vamos avançar com a escrita desse material e apoiar projetos que valorizem os saberes e gerem renda para os mestres.”

A professora destacou ainda a possibilidade do modelismo naval como alternativa de renda, e a necessidade de reconstruir relações históricas entre a instituição e a comunidade de trabalhadores:

“Valença tem muitos tesouros que precisam ser mais valorizados. Esse não é um projeto do IFBA ou meu, é um projeto social que executamos através da estrutura do instituto. A finalidade é ter outro ambiente cultural e social na cidade.”

Mestre da construção naval Manoel Bonfim (Foto: Jornal Valença Agora)

O mestre carpinteiro naval Manoel Bonfim, de 57 anos, participou do projeto e relatou sua trajetória. Filho do Mestre Firmino, trabalha desde os nove anos. Emocionado, afirmou:

“Dei sorte na vida com isso. Agradeço muito a Deus pelo dom e aos mestres que tiveram a capacidade de nos ensinar. Eu vejo essa instituição fazendo uma coisa muito boa, que estava precisando em Valença. A gente estava preocupado em acabar a profissão, porque não tem incentivo, principalmente do poder público. Fomos muito perseguidos. Agora temos ajuda das instituições, um incentivo para continuar. Peço também às autoridades que olhem para esse lado, porque tem muitas crianças que precisam aprender.”

Estudante Ana Luisa Brandão, bolsista do projeto (Foto: Jornal Valença Agora)

A estudante Ana Luísa Brandão, bolsista do projeto, destacou a importância da iniciativa:

“Participar desse projeto está sendo uma experiência muito boa. A economia de Valença também vem da construção dessas embarcações. As pessoas veem os barcos, mas não se perguntam quem os constrói. É necessário reconhecer a profissão desses mestres, porque seus saberes não podem morrer. Antes da tecnologia, tudo era manual, e esses conhecimentos resistem até hoje.”

Manoel Antônio, presidente do ISCULP (Foto: Jornal Valença Agora)

O artista visual e presidente do ISCULP, Manoel Antônio, parceiro do IFBA na execução do projeto, afirmou:

“O projeto nasce de diálogos de mais de cinco anos. O ISCULP aproximou a instituição dos mestres. Foram nove meses intensos, com muitas visitas e debates sobre o declínio da construção naval. Surgiu a possibilidade de um estaleiro-escola. Acreditamos que é possível restaurar a construção naval no município. Os mestres estão envelhecendo, e precisamos formar novos construtores. Eles podem voltar agora como professores, transmitindo o conhecimento que carregam.”

A secretária de Pesca e Aquicultura, Cristiane Oiticica, enfatizou a relevância econômica e cultural da carpintaria naval:

“A construção naval existe há séculos na nossa cidade. Temos muitos carpinteiros, e embarcações feitas aqui são levadas para outros estados e até para outros países. É importante reforçar a importância dessa profissão e valorizar os mestres, cujo conhecimento é passado de geração em geração.”

Secretários municipais Cristiane Oiticica (Pesca) e Vidalto Oiticica (Turismo) (Foto: Jornal Valença Agora)

O secretário de Turismo, Vidalto Oiticica, também destacou a relevância do debate promovido pelo projeto:

“É um tema importante sendo debatido através desse projeto no IFBA. Isso proporciona à sociedade a consciência da grandeza da construção naval em Valença e do patrimônio que essa atividade re-presenta ao longo das décadas, reconhecido até na Europa. Durante muito tempo, não se soube explicar a decadência desse mercado na nossa cidade. Parabenizo o IFBA pela iniciativa, que inclusive dialoga com a própria origem da instituição na região. Existe um entrelaçamento histórico entre a construção naval e a presença do IFBA em Valença, e esse trabalho deixa um legado de resistência para que a população possa ter o verdadeiro conhecimento desse patrimônio.”

Também participaram do encontro mestres saveiristas de Maragogipe. Fernando afirmou:

“Foi um prazer estar aqui. Em Maragogipe a gente transporta areia, pedra, leva para as ilhas. Tem saveiro de vela de içar.”

Mestres saveiristas Fernando e Paulo (Foto: Jornal Valença Agora)

Paulo, também saveirista, completou:

“Foi um grande prazer vir a Valença pela primeira vez. Gostei da hospitalidade. Trabalhamos com transporte de carga, mas também estamos ajustando para fazer passeios. Acho muito bom valorizarem os construtores de barcos. É a nossa profissão.”

A culminância encerrou um ciclo de formação, pesquisa e aproximação entre o IFBA, a comunidade e os mestres da carpintaria naval, reafirmando o papel de Valença como território de memória, saberes e identidade marítima. Com o apoio institucional do IPHAN e o engajamento da sociedade civil, o projeto sinaliza perspectivas concretas para fortalecer e salvaguardar um dos mais importantes patrimônios culturais da cidade.

 

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