Novos documentos ampliam a história da Igreja de Nossa Senhora do Amparo: uma atualização historiográfica sobre o passado de Valença Jornal Valença Agora 7 de outubro de 2025 Janelas Abertas Pesquisar sobre o passado de Valença não é tarefa simples. Historicamente, a cidade falhou na preservação de sua própria memória, seja pela ausência de políticas consistentes de conservação documental, seja pela inexistência de um memorial ou de um arquivo público municipal estruturado. Felizmente, a relevância histórica do território valenciano, que remonta a mais de 450 anos, fez com que muitos registros fossem salvaguardados em arquivos de Salvador e do Rio de Janeiro. Esses acervos, dispersos em instituições de outras cidades, oferecem aos historiadores valencianos e demais pesquisadores uma verdadeira luz no fim do túnel, permitindo reconstruir fragmentos de um passado rico e fundamental para compreender uma das cidades mais significativas da história do Brasil. E afirmo isso sem qualquer traço de bairrismo: trata-se de um reconhecimento histórico inquestionável. No passado, diversos estudiosos se dedicaram a registrar aspectos da história de Valença, produzindo obras que se tornaram referências fundamentais para compreender o desenvolvimento da cidade. Foi nesse contexto de escassez de documentos históricos que muitos desses pesquisadores construíram suas leituras do passado. A falta de fontes mais completas, entretanto, acabava por levar a interpretações por vezes imprecisas ou nebulosas, reflexo das limitações de acesso às evidências disponíveis à época. Entre essas questões, sempre me intrigou a aparente “curta idade” da Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Valença, especialmente se considerarmos que o processo de colonização das terras valencianas remonta aproximadamente a 1557. O que estaria faltando nesse quebra-cabeça histórico? Quando ingressei no Mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em História do Atlântico e da Diáspora Africana da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), em 2023, tinha como objetivo pesquisar a Festa de Nossa Senhora do Amparo entre os anos de 1960 e 2013, recorte que, à época, as fontes disponíveis permitiam investigar. À medida que avancei no curso, em meio a pesquisas digitais e em campo, novas fontes começaram a surgir, revelando aspectos inéditos sobre o passado da Igreja do Amparo. Tornou-se necessário, portanto, situar a festa dentro de um panorama mais amplo, que incluísse a história da cidade e da devoção, a fim de compreender melhor as raízes e permanências de práticas ainda observadas na atualidade. Tive o privilégio de desenvolver essa investigação em um contexto de significativo avanço na digitalização de documentos por instituições responsáveis pela guarda desses acervos, o que me possibilitou acessar fontes que, muito provavelmente, não estavam ao alcance dos pesquisadores que escreveram sobre Valença anteriormente. Na minha dissertação de mestrado, disponível para consulta pública no site da biblioteca da UESC, optei por uma abordagem mais contida em relação a esses achados, respeitando as limitações do formato da pesquisa, mas já indicando inconsistências históricas sobre o passado da Igreja de Nossa Senhora do Amparo. Entendo que uma análise mais aprofundada dessas questões demanda um processo teórico-metodológico mais elaborado, que pretendo desenvolver em nível de Doutorado. No entanto, isso não me impede de compartilhar, neste espaço, uma leitura preliminar dos resultados obtidos até aqui. Os estudiosos que investigaram o passado das terras valencianas acreditavam, até recentemente, que a Igreja de Nossa Senhora do Amparo teria sido construída por volta de 1757. Contudo, considerando que o processo de colonização da região remonta aproximadamente a 1557, surge uma questão: como explicar um intervalo tão longo entre o início da ocupação portuguesa — em que a presença de templos católicos era elemento central para a organização social e territorial — e a construção da igreja na terra do Una? Sabe-se, por meio de documentos, que a primeira devoção estabelecida na região, hoje conhecida como Valença, foi dedicada a São Gens. Essa devoção estava associada a uma capela construída não no local onde atualmente se encontra a Igreja de Nossa Senhora do Amparo, mas dentro das dependências do engenho de açúcar de Sebastião de Pontes, fidalgo que recebeu terras às margens do Rio Una como sesmarias. Era comum, à época, que engenhos possuíssem capelas próprias, o que provavelmente também ocorreu no engenho de Pontes. Com a expulsão de Sebastião de Pontes, determinada por Portugal em razão de desavenças com os colonos, o núcleo de povoação ligado ao seu engenho foi tomado pelos indígenas que habitavam a região e resistiam à imposição da colonização portuguesa. Os colonizadores brancos que haviam se dispersado estabeleceram um novo povoado na região, denominado Mapendipe, por volta de 1620, nas proximidades também do Rio Una — sítio histórico ainda existente. Nesse povoado foi construída uma capela dedicada a São João Batista, hoje em ruínas. Segundo a tradição oral, a imagem desse santo seria a mesma que atualmente pertence à Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus. Ainda no século XVII, os povos indígenas continuaram resistindo e buscando retomar as terras tomadas pelos portugueses. A partir de 1660, o Governador-Geral do Brasil organizou uma série de expedições para o domínio dos grupos indígenas que persistiam na região. Um dos interesses estratégicos era a exploração do corte de madeira, atividade que conferia à área grande importância econômica. Após incursões de bandeirantes paulistas, por volta de 1673, um novo povoamento foi estabelecido nas proximidades da primeira cachoeira do Rio Una, contando a partir da parte navegável do rio. Nesse contexto, construiu-se uma nova capela para atender à população local, erguida no ponto mais elevado, exatamente onde hoje se localiza a Igreja de Nossa Senhora do Amparo. IMAGEM: ACERVO DE CARLOS HENRIQUE FERREIRA PASSOS, [197-]Uma curiosidade é que, nesse período, Nossa Senhora do Amparo recebia o título de “Nossa Senhora do Amparo dos Navegantes”. Essa designação provavelmente se deve ao fato de sua capela ter sido erguida de frente para o Rio Una, então o principal meio de acesso à região. Assim, a santa era invocada como o “amparo dos navegantes” que utilizavam as águas do rio em suas viagens. O título passou a ser apenas “Nossa Senhora do Amparo”, provavelmente na segunda metade do século XIX, quando a devoção passa a ser associada ao mundo do trabalho das fábricas têxteis da cidade. Mas isso já é assunto para outro texto como este. Além de documentos memorialísticos que apontam a construção da Igreja de Nossa Senhora do Amparo por volta de 1673, outras fontes reforçam essa datação, evidenciando que o templo remonta, no mínimo, ao século XVII. Um registro da primeira metade do século XIX já descrevia a igreja como uma edificação dos “primórdios do século XVII”. Também foram localizadas referências de batizados realizados na Igreja do Amparo entre 1700 e 1750, o que evidencia sua atividade religiosa nesse período. Um memorialista, em seu diário de 1864, relatou a existência de uma lápide na capela de Nossa Senhora do Amparo, pertencente a uma pessoa cuja identidade já era desconhecida em sua época — fato que ele atribuía ao falecimento ter ocorrido em tempos muito remotos. Essa hipótese é plausível, considerando que, à época, Valença tinha uma população estimada em apenas 13 mil habitantes. No início do século XX, um jornal destacou outra lápide, localizada no altar-mor da igreja, identificando uma benfeitora da capela falecida em 1728. Esses e outros registros convergem para uma mesma conclusão: a Igreja de Nossa Senhora do Amparo data, no mínimo, de 1673, e não de 1757, como se acreditava até então. É importante destacar que o propósito desta descoberta não é estabelecer o que está certo ou errado, mas evidenciar a riqueza histórica de Valença, cujas raízes são ainda mais profundas do que se imaginava. As pesquisas anteriores têm papel fundamental nesse processo, pois servem como ponto de partida, oferecendo caminhos e apontando lacunas que permitem novas investigações e complementações. O objetivo é que estudar o passado de Valença se torne um exercício contínuo, e que os resultados dessas pesquisas cheguem à população valenciana, possibilitando que ela se aproprie da história de seu próprio povo. Revisitar a historiografia da Igreja de Nossa Senhora do Amparo é um compromisso que assumo e que se concretiza, em grande medida, por meio do projeto Memorial Amparo, que busca não apenas aprofundar o conhecimento histórico, mas também oferecer caminhos para a salvaguarda da Festa de Nossa Senhora do Amparo, patrimônio cultural do povo de Valença. Foto de capa: ACERVO JOSELITO DOS SANTOS CARDIM, 1978 Deixe uma resposta Cancelar respostaSeu endereço de email não será publicado.ComentarNome* Email* Website Salvar meus dados neste navegador para a próxima vez que eu comentar.