Omissão oficial da produção de cravo-da-índia: enquanto o mundo registra, o Brasil se cala Jornal Valença Agora 17 de novembro de 2025 Colunistas O Território de Identidade Baixo Sul da Bahia caracteriza-se por uma expressiva diversidade agrícola, contemplando oito culturas temporárias e vinte permanentes. Entre estas, algumas se destacam pelo elevado valor de produção, exercendo papel fundamental na geração de emprego, renda e na dinamização das atividades econômicas regionais. A Tabela 1 apresenta as dez principais culturas permanentes que contribuem de forma significativa para a composição do Produto Interno Bruto (PIB) agropecuário do Baixo Sul da Bahia. Ressalta-se, contudo, a ausência de informações referentes ao cravo-da-índia, em virtude da inexistência de registros oficiais sobre essa cultura na base de dados da Produção Agrícola Municipal (PAM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em contraste com as demais culturas registradas no Estado Tabela 1-Valor de produção das culturas permanentes do Baixo Sul da Bahia, com exceção do cravo-da-índia, por inexistência de dados oficiais Culturas Produção (t) Valor da produção (R$) 1. Cacau 45.048 2.148.938.000,00 2. Banana 208.449 457.603.000,00 3. Borracha 13.936 230.312.000,00 4. Guaraná 1.567 24.312.000,00 5. Dendê 39.449 17.493.000,00 6. Café 705 7.115.000,00 7. Mamão 1.315 2.420.000,00 8. Palmito 1.477 2.320.000,00 9. Urucum 870 2.223.000,00 10. Cravo-da-índia Sem indicadores Sem indicadores Fonte: IBGE, Produção Agrícola Municipal (PAM), 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2025. Dados compilados pelo autor. A divulgação recente, por meio da imprensa, de um valor estimado em R$ 250 milhões para a produção anual de cravo-da-índia, sem qualquer referência à fonte dos dados, revela falta de rigor informacional e contribui para a desinformação, considerando que não há registros oficiais que sustentem tal estimativa. A trajetória histórica da estatística revela sua importância como base do conhecimento e da gestão pública. Desde os primeiros registros de recenseamentos na China Antiga, por volta de 3.000 a.C., observa-se que o domínio e a confiabilidade dos dados sempre foram elementos decisivos para o planejamento e a formulação de políticas — o que reforça a necessidade e o valor dos dados oficiais na atualidade A estatística teve início no Brasil, em 1871, com a criação da Diretoria Geral de Estatística (DGE). Posteriormente, passou a ser denominada Instituto Nacional de Estatística (INE), até consolidar-se como Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 1938, durante o governo de Getúlio Vargas. O Estado é o principal responsável pela produção de indicadores socioeconômicos, por meio de instituições especializadas, com o propósito de subsidiar o planejamento de ações e a formulação de políticas públicas. Sem dados estatísticos, as bases de informação do IPEA (IPEADATA) e da FAO (FAOSTAT) permanecem com déficit de informações, o que compromete o registro de indicadores sociais e econômicos capazes de representar fielmente a produção agrícola nacional. A Tabela 2 apresenta o ranking de dez países produtores de cravo-da-índia, incluindo o Brasil, país para o qual não há registros de produção. Historicamente, o cravo-da-índia foi introduzido na Bahia antes mesmo do cacau, cuja introdução na região cacaueira é datada de 1746. Tabela 2 – Principais países produtores de cravo-da-índia entre 2016 e 2023, incluindo o Brasil sem registros estatísticos de produção Países 2016 2017 2018 2019 2020 2021 2022 2023 Indonésia 139.611 113.178 131.014 140.796 145.984 135.753 137.124 135.178 Madagascar 24.245 24.866 23.634 23.120 23.931 24.038 24.119 24.680 Tanzânia 8.209 8.662 8.638 8.503 8.601 8.581 8.562 8.581 Comores 6.700 6.300 7.500 6.941 6.799 7.072 7.392 7.662 Sri Lanka 8.292 7.292 5.508 4.377 6.710 5.706 5.722 5.899 China 1.269 1.348 1.320 1.312 1.327 1.320 1.320 1.322 Índia 1.210 1.230 1.230 1.000 1.185 1.209 1.270 1.015 Malásia 225,68 226,17 225,95 225,34 223,01 222,29 221,56 221,07 Granada 37,9 38,68 38,93 39,16 39,38 39,22 40,49 41,7 Brasil 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 Fonte: Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAOSTAT). Source: State Agri/Hort. Departments/DASD Kozhikkode. Dados compilados pelo autor. Concluindo, vale lembrar que outras culturas introduzidas no Brasil ampliaram suas fronteiras agrícolas apoiadas por pesquisas, crédito rural e políticas públicas que incentivaram os produtores rurais a consolidá-las como importantes atividades econômicas. Em contraste, o cravo-da-índia permanece marginalizado, cultivado principalmente por agricultores familiares, embora contribua para a geração de empregos, renda e tributos. Referências: Produção Agrícola – Lavoura Permanente Disponível em: <https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ba/pesquisa/15/11863>. Acesso em: 4 de Nov. 2025. Major Spice/state wise area and production of spices. Disponível em: <https://www.indianspices.com/sites/default/files/Major%20spice%20state%20wise%20area%20production%202024-25%20web.pdf>. Acesso em: 2 de Nov. 2025. Crops and livestock products. Disponível em: <https://www.fao.org/faostat/en/#data/QCL>. Acesso em: 3 de Nov. 2025. 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