Os 225 anos da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus de Valença, Bahia: algumas considerações históricas sobre a Igreja Matriz Jornal Valença Agora 7 de julho de 2026 Colunistas, Janelas Abertas “Valença surge em prol do teu reinado”! No dia 26 de setembro de 2026, a Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, outrora Freguesia do Santíssimo Coração de Jesus, completará 225 anos. Sua igreja matriz foi tombada provisoriamente como patrimônio cultural da Bahia pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), no ano de 2001, no âmbito do Processo de Tombamento nº 005/2001, ocasião em que a referida paróquia, à época, completava 200 anos. Em agosto de 2019, o templo, de grande relevância arquitetônica, foi interditado em razão da situação crítica de seus problemas estruturais. Com isso, as celebrações da paróquia foram realocadas para o Oratório Paroquial, edificação histórica datada de 1930 e anexa à igreja matriz. Naquele ano, a última festividade realizada ainda dentro da igreja correspondeu aos festejos ao Sagrado Coração de Jesus. À época, ainda em janeiro, o IPAC notificou a paróquia a respeito do estado estrutural do templo, apresentando um relatório que ressaltava a urgência de reparos no forro e no telhado, além de apontar diversos procedimentos que, ao longo do tempo, foram realizados em desacordo com a legislação e que deveriam ser reconstituídos. Ou seja, tratava-se da descaracterização dos elementos históricos, artísticos e estruturais da igreja bissecular. De lá para cá, já se somam sete anos em que a igreja matriz está fechada. Os primeiros sinais formais de encaminhamento do processo de restauro ocorreram em outubro de 2021, quando o IPAC abriu uma licitação para a contratação de uma empresa de engenharia e arquitetura responsável pela elaboração e execução dos projetos voltados à recuperação estrutural e ao restauro do patrimônio. Venceu o certame, conforme consta no Diário Oficial do Estado, a empresa Domo Arquitetura, Engenharia e Projetos Culturais Ltda. Ao longo desse período, foram muitos – e continuam sendo – os esforços da comunidade católica, dos demais valencianos e de alguns políticos para levantar recursos mínimos capazes de viabilizar o início das obras. Nesse meio tempo, a data de 19 de novembro de 2023 marcou para sempre a memória da cidade de Valença, quando, na madrugada daquele dia, a Capela do Calvário, situada na lateral esquerda da igreja e datada de 1865, foi incendiada. As chamas comprometeram gravemente a capela e consumiram seu retábulo – estrutura popularmente conhecida como altar –, juntamente com as imagens de Nossa Senhora das Dores, em estilo roca, e de um Cristo Crucificado de braços articulados, ambos do século XIX e em tamanho natural. Os valencianos possuíam uma relação afetiva com ambas as imagens, tanto pela beleza artística delas quanto pela sua importância nas celebrações da Semana Santa da cidade. Infelizmente, o interior da capela foi severamente comprometido, mas, felizmente, o incêndio não atingiu a igreja de forma mais ampla. O fatídico acontecimento parece ter servido de impulso na corrida para o levantamento de fundos para o início dos trabalhos de restauro, sobretudo porque o próprio templo já se apresentava em estado de arruinamento em razão do fechamento e da ação do tempo. Entre os problemas visíveis, estavam a queda de tábuas do forro da nave, que danificaram alguns altares laterais, e o afundamento do piso. Foto: Acervo Joselito Santos Cardim, [196-]A licitação para o restauro do telhado da igreja matriz foi aprovada pela Procuradoria-Geral do Estado (PGE) em maio de 2024. Em outubro do mesmo ano, o Diário Oficial do Estado da Bahia anunciou a contratação da empresa Mehlen Construções Ltda. para o início das obras de restauro do templo. Desde então, as obras tiveram avanços consideráveis, como a recuperação de todo o telhado da igreja, inclusive com a retomada das telhas de cerâmica, aspecto original do templo, e a restauração do forro da nave da igreja e da respectiva pintura artística. Embora essa pintura não seja a original, ela foi preservada e restaurada, uma vez que parte da pintura original do forro foi perdida com as intervenções sofridas ao longo do tempo. Entre os trabalhos que têm gerado maior expectativa, destaca-se a restauração do forro da capela-mor, pois, sob várias camadas de repintura, foi possível encontrar pinturas originais. Também foram identificados, por meio de prospecções, outros achados relevantes, como a cor original da arcada que separa a nave da capela-mor, os douramentos em folhas de ouro das decorações artísticas do templo e a cor original do altar-mor. Esses trabalhos vêm sendo realizados pela empresa sob a coordenação do restaurador e pesquisador Júlio César Garrido Maia. Próxima de completar seus 225 anos, a Paróquia do Sagrado Coração de Jesus mantém seus esforços e conta com a ajuda dos valencianos e dos demais interessados na recuperação deste patrimônio histórico. A expectativa da paróquia é realizar, ainda este ano, a recuperação da pintura externa da igreja para que, na Noite de Natal, em 24 de dezembro de 2026, o templo possa ser reaberto, mesmo com seu processo de restauro ainda em andamento. A intenção é permitir que todos possam ver mais de perto os trabalhos já realizados e aqueles que ainda precisam ser feitos, que são muitos. Por ocasião desses 225 anos, apresento um breve histórico da construção da Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, tema que tenho buscado reconstituir em minha trajetória acadêmica como historiador. Durante a pesquisa de doutoramento que desenvolvo no Programa de Pós-Graduação em História Social (PPGHIS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), deparei-me com documentos que ajudam a compreender como se deu a construção do templo. Essas fontes serão tratadas em pesquisa mais densa e específica, a ser publicada posteriormente. Aqui, reúno apenas algumas considerações preliminares de interesse público. Primeiramente, é necessário corrigir uma informação que tem sido divulgada pelo IPAC, segundo a qual a Igreja do Sagrado Coração de Jesus teria começado a ser construída em 1759 e teria sido inaugurada em 1801. Na verdade, essa informação contradiz o próprio documento do órgão, o Inventário de Proteção do Acervo Cultural da Bahia, no qual a igreja foi inventariada. Alguns estudos apontam que a primeira igreja dedicada ao Sagrado Coração de Jesus no Brasil foi a de Laranjeiras, cuja estrutura atual data da década de 1790, sendo considerada a primeira do país vinculada a esse culto. Quando a localidade hoje compreendida como Valença foi elevada à categoria de vila, em 1799, ficou estabelecido que o Santíssimo Coração de Jesus seria o padroeiro da nova vila, que passou a se chamar Vila de Nova Valença do Santíssimo Coração de Jesus, com a criação de uma freguesia sob a mesma invocação, inaugurada em 26 de setembro de 1801. A partir de então, documentos mostram que foi construída, provisoriamente, entre 1799 e 1801, uma capela de taipa para servir de matriz provisória. O terreno da atual matriz foi comprado pela Irmandade em 1803, e a pedra fundamental da atual igreja matriz só foi lançada em 1809. Ao longo de todo o século XIX, foram encaminhados vários pedidos de recursos à Coroa Portuguesa e, depois, ao Império do Brasil, para as obras de construção do templo. Em 1824, as celebrações ainda ocorriam no templo provisório de taipa, por causa do lento andamento das obras. Diversas loterias foram realizadas pela paróquia para angariar fundos para a finalização da construção do templo. O retábulo da capela lateral direita, dedicada ao Santíssimo Sacramento, foi inaugurado em 1849. Até o momento, esse é o único retábulo para o qual foi possível identificar a autoria: Vitoriano dos Anjos Figueiroa, o mesmo autor do retábulo-mor da Catedral de Campinas, em São Paulo. Já o retábulo da Capela do Calvário, como dito anteriormente, foi inaugurado em 1865. A busca por recursos para a conclusão e os reparos da igreja matriz se estendeu, pelo menos conforme a documentação consultada, até os primeiros anos do século XX. De todo modo, a construção da igreja matriz, conforme concebida em sua planta, nunca foi concluída. Segundo o IPAC, o plano original previa uma planta muito semelhante à da Igreja de Nossa Senhora da Purificação de Santo Amaro (BA), hoje basílica menor. Ainda assim, a Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus preserva características arquitetônicas expressivas, como a planta em cruz, a sacristia e o campanário lateral direito, dotado de cinco sinos, além dos seis altares laterais, do coro, da capela-mor e das capelas do transepto. Também se destacam o forro da nave em formato de gamela, o forro da capela-mor em abóbada abatida com lunetas, o frontão curvilíneo com óculo central e as portas em arcos plenos que dão acesso ao templo. No cenário atual, a cidade de Valença carece de políticas patrimoniais mais efetivas. Da Vila de Nova Valença do Santíssimo Coração de Jesus e dos primórdios de Valença como cidade, restam pouquíssimos exemplares de edificações históricas daquele período, assim como de outras épocas. Ao que parece, a recuperação da Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus representa uma oportunidade de recolocar a preservação patrimonial no debate público da cidade, especialmente diante do estado delicado de bens como o Palacete da Câmara de Vereadores, construído pelo capitão-mor Bernardino de Sena Madureira, em 1849, e de tantos exemplares do casario antigo submetidos ao abandono, à descaracterização e às pressões da especulação imobiliária. Ademais, não constitui objetivo deste texto elaborar um inventário das edificações históricas da cidade, ainda que seja sempre importante chamar a atenção para esses problemas do município. Saúdo os 225 anos da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus com a esperança de que este ano comemorativo fique marcado pela reabertura da igreja matriz à comunidade valenciana. Entretanto, ainda há muito o que recuperar dessa joia arquitetônica de Valença, outrora considerada uma igreja majestosa e um magnífico templo, um dos mais belos do Estado da Bahia. Continuaremos junto à paróquia nas ações de restauro da Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus e, quem sabe, por ocasião dos 230 anos da paróquia, possamos ver a igreja integralmente restaurada, dentro dos limites do que ainda for possível recuperar. Encerro com os versos do hino ao Santíssimo Coração de Jesus de Valença: “Valencianos, pois vemos jurar-te, sempre guardar as leis do teu amor; erguer bem alto o teu nobre estandarte, e, se é mister morrer por ti, Senhor!”. 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