Transcorria o ano de 1972, o Ano do Sesquicentenário da Independência do Brasil e da competição da Taça da Independência, a chamada Minicopa, esta que fora disputada no nosso país nos meses de junho e julho, quando nos sangramos campeões e a Seleção de Portugal foi vice.

Era o  Tempo de Ouro do Futebol Brasileiro, na época já Tri Campeão Mundial, com  craques de primeiríssima grandeza aos montes, sem falar dele, o maior de todos e de todos os tempos, sua Majestade o Rei Pelé, que não disputou tal torneio pois houvera se despedido da seleção em 1971, mas continuava atuando pelo Santos, quando em 31 /01/ 1974 tive a honra de jogar contra ele em pleno Pacaembu gerando o falado fantástico conto das Duas Canetas, sendo uma delas , uma caneta Bic que levei dentro da cueca para no final do jogo ganhar um seu autógrafo.

Agora falando em Minicopa, eu fiz parte do elenco da CONCACAF, mas isto é outro acontecimento que oportunamente contarei.

Voltando, pois, ao Foi Demais’, era um Domingo de Sol com Praias Lotadas na Histórica e Folclórica Capital Baiana, a Cidade do Salvador, a Cidade da Bahia, da Linda Baía de Todos os Santos, Caboclos e Orixás.

No Estádio Governador Otávio Mangabeira – A Fonte Nova –  às 14 horas, o time Juvenil do Esporte Clube Vitória, o Leão Tradição enfrentava o time Juvenil do Leônico, o Moleque Travesso.

Faziam a preliminar do jogo principal que seria travado entre as equipes profissionais das citadas agremiações.

O Leônico que tinha um bom time, com seu goleiro Grande, de saudosa memória, (jogamos futebol de salão juntos pela seleção da FUBE – Federação Universitária Baiana de Esportes – nos Jogos Universitários Brasileiros em Maceió/AL em 1976), Dida na lateral esquerda, Espinheirinha na ponta direita e um centroavante bom, abusado e gozador apelidado de Peteleco, o qual aos 15° minutos do 1° tempo abriu o Placar/ o Marcador.

O referido atacante depois do gol começou a falação, a caçoada, a gozação.

Eles realmente estavam mandando no jogo. Assim foi até o final dos 45 minutos do 1° tempo da partida.

Descemos para o vestiário para tomar água gelada, molhar nossas cabeças, chupar as poucas laranjas que sobraram, pois nosso técnico, o Folclórico Pio Sacramento, de saudosa memória, quando nosso time estava perdendo os jogos, ficava bastante nervoso e danava a chupar as nossas laranjas.

O certo é que o baixote Pio baixou cobrança; disse que só faltou ouvir nossos roncos em campo; estava todo mundo dormindo; gritou pra gente acordar; que estávamos fazendo feio diante da nossa torcida e dos nossos diretores que estavam todos ali vendo o jogo; disse ele que na sua preleção antes da partida pediu o de sempre, ou seja , o time jogando como as ondas do mar; indo e vindo; indo em bloco para  atacar e vindo em bloco para se defender; mas o time jogou o 1° tempo parado como água de lagoa, como a   do Dique do Tororó; ele queria o time no 2° tempo jogando como um mar revolto, bravio, forte,  indo e vindo num mesmo rompante sem parar, para assim sufocar, afogar o adversário; tínhamos a todo custo que virar o placar do jogo.

Iniciado o 2° tempo, antes mesmo dos 10 minutos, lancei uma bola na frente para Evilásio (ele na época era marinheiro na Base Naval de Aratu, tornou-se depois profissional, atuando ainda no Flamengo e Santos; hoje mora em Aracaju) que tinha uma passada longa (semelhante a do ex craque Enéas da Portuguesa de Desportos de São Paulo) e muita habilidade; não deu outra , bola na rede da trave que dá para o Dique.

Não demorou muito e Elmo (centroavante que também tornou-se profissional jogando por este Brasil afora), depois de uma bela jogada do nosso endiabrado ponta direita Zé Luiz, de cabeça desempatou o jogo e por volta dos 35 minutos, Toni, de saudosa memória,nosso excelente lateral direito, lançou uma bola pelo alto para dentro da grande área do Leônico, eu de cabeça toquei para trás, colocando Evilásio de frente ao gol ;aí foi saco. O Placar da Fonte Nova passou a registrar: Vitoria 3 X 1 Leônico.

Peteleco calou de vez, mas eu ainda daria um troco bem dado e dei.

Lá por volta dos 40 minutos, ao receber livre, no meio campo, uma bola rasteira passada pelo nosso Beque Central e Capitão da Equipe, meu amigo irmão Carlitinho Maia, hoje chefe da Defensoria Pública do Município de Valença/BA, eu a toquei pro alto e a coloquei assentada na minha nuca.

Antes que aproximasse alguém do Leônico, deixei a pelota escorrer suavemente pelas minhas costas e de perna direita dei um ‘paulista’ e gritei cariocado ‘ a la meu quarto-zagueiro’ Sacramento; vai Pedrin.

A Pelota foi parar nos pés do nosso lateral esquerdo Pedrinho, nosso Velho Pedro, de saudosa memória, que ao receber a Dona Redonda, como fiel discípulo de Vavazinho e Reizinho (boleiros das antigas, cheios de picardia e criadores de inúmeras girias), exclamou alto: ” venha, sua descarada!

Neste momento só ouvimos o estridente apito do Árbitro da Partida, Nilton Tranquille, de saudosa memória, que parando o jogo, correu na minha direção e deu-me, gritando e gesticulando, a maior reprimenda.

Esbravejou dizendo que eu mais Pedrinho estávamos faltando com o respeito ao adversário e severamente nos ameaçou de expulsão, recebendo de pronto, os apupos da torcida que em bom número já se fazia presente no estádio.

Confesso que a partir daquele momento fiquei um tanto quanto desconectado do jogo, só voltando a me ligar quando Tranquilli passou perto de mim e discretamente confidenciou: ” aquela sua jogada foi linda, Foi Demais!”

Nilton Tranquille foi um dos inúmeros grandes amigos que o futebol me deu.

Os esportes, sem dúvida alguma, são catalizadores fantásticos na química maravilhosa da construção de amizades para toda a vida.

Foto: Acervo pessoal do autor

 

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