Espetáculo reuniu arte, pesquisa e educação para conscientizar sobre a preservação da água e fortaleceu o desejo de transformar a Quermesse em um patrimônio cultural de Valença

 Há mais de 30 anos fazendo parte do calendário cultural da comunidade escolar, a Quermesse do Colégio CETEN voltou a reunir alunos, famílias e comunidade em um espetáculo que uniu cultura popular, pesquisa, teatro, dança e conscientização ambiental. Em 2026, o evento teve como tema “A Lição da Água”, levando ao público uma reflexão sobre a preservação dos recursos hídricos por meio de apresentações artísticas construídas a partir de um amplo trabalho pedagógico desenvolvido ao longo dos últimos meses.

Para a diretora-geral do CETEN, Glória Souza, a Quermesse deixou de ser apenas uma festa junina e se consolidou como um projeto educacional voltado às necessidades da sociedade.

“A Quermesse já tem 33 anos e, a cada edição, conseguimos evoluir. Ela não é apenas uma festa de São João. É um projeto pedagógico construído a partir de temas que dialogam com a realidade da cidade e da população. Trabalhamos cultura, educação e questões que precisam ser discutidas. Neste ano, refletimos sobre a escassez da água. O Baixo Sul possui abundância hídrica, mas isso não significa que podemos deixar de cuidar desse patrimônio. Educar é conscientizar, e é pela educação que conseguimos levar essas reflexões para dentro das famílias e da comunidade”, afirmou.

Glória revelou ainda que sonha em ver a Quermesse ultrapassar definitivamente os limites da escola e tornar-se um patrimônio cultural do município.

“Há muito tempo imagino essa Quermesse ocupando as ruas da cidade, acontecendo em um grande espaço, envolvendo também estudantes da rede pública. Sonho com algo semelhante aos grandes espetáculos populares, em que toda a cidade participe, com apresentações, torcidas e integração entre as escolas. É um projeto muito grandioso para ser realizado apenas pelo CETEN, mas acredito que, por meio de parcerias, ele pode crescer cada vez mais. É um trabalho de formiguinha, construído aos poucos, mas esse sempre foi um desejo meu”, destacou.

A professora de Artes, atriz e bailarina Alone Venceslau Góes Oliva explicou que a Quermesse deste ano apresentou uma estrutura inédita, dividida em três grandes blocos narrativos, integrando teatro, dança, música e performance.

“Trouxemos um formato completamente diferente. No primeiro bloco, desenvolvemos toda uma cena sobre a água, trabalhando sua fluidez por meio das coreografias, dos textos e da música. No segundo momento mantivemos a tradição do samba-enredo, em que cada turma apresentou uma ala relacionada ao tema ‘A Lição da Água’. Encerramos com um terceiro bloco que mostra o oposto da abundância: a seca, retratando o sertão, o cangaço, o povo nordestino e culminando na festa de São João como símbolo de esperança. A mensagem final é que, mesmo diante das dificuldades, o nordestino preserva sua alegria e aprende a cuidar daquilo que garante a vida.”

Além da inovação artística, Alone ressaltou que a edição valorizou manifestações culturais brasileiras, como maracatu, bumba meu boi, brincantes populares e referências ao manguezal, integrando tradição e contemporaneidade.

“Nossa proposta foi unir tradição e inovação para lembrar que a água é o bem mais precioso da humanidade.”

Segundo a professora, a apresentação foi apenas a culminância de um trabalho desenvolvido durante meses pelos estudantes.

“Nós não dividimos a escola em equipes este ano. Toda a comunidade escolar trabalhou unida. Desde os alunos do segundo ano do Ensino Fundamental até o terceiro ano do Ensino Médio participaram da construção do projeto. Muitos imaginavam que, sem competição, os estudantes não se envolveriam, mas aconteceu exatamente o contrário. Eles abraçaram a proposta porque participaram de todo o processo de pesquisa.”

Ela explicou que os alunos realizaram visitas técnicas à Cachoeira de Pancada Grande, à comunidade quilombola de Jatimane e à Praia de Pratigi, além de pesquisas históricas, culturais, musicais e sobre figurinos.

“A apresentação é apenas a cereja do bolo. Antes dela houve pesquisa histórica, pesquisa cultural, estudo sobre música, figurinos e visitas de campo. Os estudantes compreenderam profundamente cada ala que representaram.”

Entre os momentos destacados por Alone estiveram a ala dos manguezais, apresentada pelos alunos do segundo ano do Ensino Fundamental I, mostrando a importância desse ecossistema para a reprodução de diversas espécies marinhas, e a ala dos Guardiões das Nascentes, desenvolvida pelo terceiro ano do Fundamental I.

“Os estudos mostraram que muitas nascentes permanecem preservadas graças ao trabalho das comunidades quilombolas, ribeirinhas, pescadores e marisqueiras. Nossa região é muito rica em lençóis freáticos e em rios subterrâneos. Essa Quermesse foi também um alerta para toda a população valenciana e para o Baixo Sul sobre a necessidade de preservar essa riqueza.”

Alone acredita que a Quermesse já ultrapassou seu caráter escolar e hoje dialoga diretamente com toda a comunidade.

“Todos os anos escolhemos temas que interferem na vida das pessoas. Já contamos a história de Valença, falamos sobre o Nordeste e, agora, discutimos a importância da água. O CETEN sempre procura levar uma mensagem que não fique restrita aos alunos. Durante todo o processo visitamos outras comunidades e mostramos que conscientizar sobre nossas riquezas naturais e nossos valores culturais é um legado que precisa ser compartilhado com toda a sociedade.”

Ao completar mais de três décadas de história, a Quermesse do CETEN reafirma sua vocação como um projeto que vai além do entretenimento. A cada edição, transforma pesquisa, arte e educação em instrumentos de valorização da cultura local e de conscientização sobre temas essenciais para o futuro da comunidade valenciana.

Fotos: Jornal Valença Agora

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