Infectologista com atuação em Hepatologia, médico fala sobre prevenção, diagnóstico precoce das doenças hepáticas e os cuidados com a saúde do fígado 

Dr. Martoni Moura e Silva, infectologista com atuação em Hepatologia, integra a equipe da Uniclin Pró-Saúde, em Valença (Foto: Jornal Valença Agora)

Valenciano, Dr. Martoni Moura e Silva retornou a Valença em 2025, depois de construir uma trajetória profissional marcada pela atuação em diferentes regiões do Brasil. Médico formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com residência em Infectologia no Acre, desenvolveu experiência no atendimento a pacientes com hepatites virais, cirrose, câncer de fígado e HIV, além de se dedicar à avaliação e ao acompanhamento das doenças hepáticas.

Atualmente, integra a equipe da Uniclin Pró-Saúde, onde atua na área de Infectologia e elastografia hepática.

Neste VOCÊ AGORA, o Dr. Martoni Moura e Silva fala sobre sua trajetória profissional, explica a importância do acompanhamento da saúde do fígado, alerta para os riscos de determinadas substâncias e aborda a ampliação do acesso da população do Baixo-Sul a serviços especializados por meio da Uniclin Pró-Saúde.

Jornal Valença Agora: Martoni, conte um pouco sobre sua trajetória e sua relação com Valença.

Dr. Martoni Moura e Silva: Sou Martoni Moura e Silva, sou valenciano, filho de Agostinho, meu saudoso pai, e Marilene, e estou aqui de volta em Valença. Voltei para cá em 2025. Fui estudante do Colégio Social, Depois, do colégio Paulo Freire e segui para Salvador.

Fiz a Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia e, depois, servi ao Exército, que me levou para a região Norte por causa do serviço militar obrigatório. Permaneci apenas um ano no Exército. Depois, comecei a trabalhar, conhecer pessoas e, enfim, fiz minha residência em Infectologia em Rio Branco.

Como o Acre tinha uma prevalência muito alta de hepatites virais e havia pouco acesso a médicos que tratavam desse assunto, especializei-me nessa área. Tínhamos muitos pacientes com cirrose e câncer de fígado, o que fez com que minha formação tivesse uma ligação muito especial com a Hepatologia. Então, na Infectologia, tratávamos as hepatites virais, mas também as consequências dessas doenças, como a cirrose.

Atendíamos muitos pacientes que já apresentavam cirrose e perdemos muitos deles porque era necessário desenvolver serviços de qualidade, com acesso a endoscopia, ultrassom e tecnologias que ajudassem a evitar desfechos ruins. Foi daí que veio essa experiência maior em Hepatologia, área à qual me dedico até hoje.

Realizei mais de mil biópsias no Acre e me dediquei à elastografia hepática, que substitui a biópsia em alguns casos. Na grande maioria deles, ela já pode substituir o procedimento. Em outros, para fins de diagnóstico, a biópsia hepática ainda se faz muito presente.

Passei 16 anos no Acre, tenho um filho acreano chamado Joaquim e sou cidadão acreano, título que recebi em 2016. Do Acre, fui para Santa Catarina por opção pessoal e me dediquei à região do Vale do Itajaí, Balneário Camboriú, Itajaí, Penha, enfim, àquela região, onde passei a atender muito mais pacientes com HIV.

Continuei atendendo pacientes da Hepatologia e fazia o ambulatório das hepatites virais, mas também trabalhava muito mais com o ambulatório de HIV. Foi uma experiência sensacional, porque, no Acre, eu não tinha tantos pacientes com HIV. Essa experiência agregou muito à minha formação. Fiz um trabalho muito bacana lá.

Por decisão pessoal, tive também um período fora do país, mas retornei e escolhi minha terra natal para cumprir esse papel. Gostaria de ter feito isso com meu pai vivo, mas vim no momento em que aconteceu.

Jornal Valença Agora: O que é ser infectologista?

Dr. Martoni Moura e Silva: Ser infectologista é, muitas vezes, ser o médico que vai tentar dar um diagnóstico que ninguém deu. Muitas vezes, os médicos recebem um caso mais complicado, e o paciente vai passando de especialista em especialista até chegar ao infectologista. Ser infectologista é ter empatia. A formação do infectologista é muito voltada para o paciente mais humilde. Você pode se destacar depois em doenças que atingem pessoas mais elitizadas, vamos dizer assim, mas isso é muito mais difícil. As doenças infectocontagiosas atingem muito mais a população carente. Obviamente, podem ocorrer exceções, mas esse é o nosso dia a dia.

É comum que nossa formação desenvolva muito a empatia e que queiramos cuidar de pacientes com menos recursos, que enfrentam mais dificuldades. Isso não nos impede de construir um olhar completo, de olhar para todos os tipos de pacientes e de sentir muito orgulho de praticar a Medicina. É pegar o paciente, tocar o paciente, sentir realmente a dor dele e fazer de tudo para que se recupere.

Jornal Valença Agora: A Pró-Saúde, como prestadora de serviços nessa área em Valença, significa mais humanidade, qualidade de vida e menor custo para a população que necessita desse atendimento?

Dr. Martoni Moura e Silva: Não tenho dúvida de que a Pró-Saúde já faz isso muito bem. Vim aqui apenas somar e me sinto honrado por fazer parte da equipe e por ter sido acolhido desde a primeira conversa que tive com seus diretores, entre eles o Dr. Ronald Neto.

Existe uma população carente em toda essa região, e o serviço certamente ajuda a reduzir os custos, porque a pessoa terá um resultado de exame confiável. Terá o resultado do exame mostrando realmente aquilo que tem, sem ficarmos desacreditando do resultado e pedindo para repetir, fazendo a pessoa gastar um pouco mais porque precisa realizar exames ainda mais complexos, já que o anterior não deu certo.

Acredito que aqui a pessoa vem e resolve seu problema. O que não puder ser resolvido aqui, porque existem situações em que isso acontece, precisará de encaminhamento. Em qualquer lugar, vemos transferências de pacientes entre capitais. Valença não será necessariamente uma exceção a essa regra.

Dr. Martoni Silva destaca a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento das doenças hepáticas (Foto: Jornal Valença Agora)

Jornal Valença Agora: O que é ser hepatologista?

Dr. Martoni Silva: Minha formação é em Infectologia, e trabalho na área de Hepatologia. Não tenho RQE em Hepatologia, mas cuidar do fígado é algo muito especial, porque ele participa de mais de mil processos de síntese de proteínas e enzimas. O fígado participa intimamente da harmonia do organismo. Se não está funcionando bem, pode ter certeza de que alguma coisa a mais também não está funcionando bem, e seu organismo não estará em harmonia. Você não vai estar bem.

O fígado é sensível, apesar de ser muito forte e de ser um órgão que se regenera. Se você retirar parte do fígado para fazer um transplante hepático, por exemplo, com o lobo esquerdo para um paciente e o lobo direito permanecendo no doador, ambas as partes podem crescer e recuperar o volume necessário. É um órgão que se regenera.

O que isso significa? Que, ao ser agredido, ele desenvolve lesões que formam cicatrizes. Essas cicatrizes se acumulam e podem levar à cirrose. Esse é um problema grave, porque a cirrose compromete muito a qualidade de vida do paciente.

Por isso, é importante retirar o agente agressor, seja o álcool, determinadas ervas ou cápsulas manipuladas que contêm substâncias capazes de agredir o fígado, muitas vezes sem que a pessoa saiba. Essa onda de hormonioterapia e soroterapia também pode representar riscos para o fígado.

Chamo atenção, principalmente, para os chás. Existem chás que podem ser hepatotóxicos, como cavalinha, cáscara-sagrada, sene, hibisco e chá verde, entre outros. Alguns podem agredir o fígado, enquanto outros, como camomila, erva-cidreira e hortelã, não apresentam o mesmo risco. Há relatos publicados e evidências científicas sobre a toxicidade hepática de determinadas plantas.

Recentemente, atendi aqui um paciente que tomava uma cápsula bastante concentrada, com três ou quatro ervas. Ele fazia uso dessas cápsulas havia cinco anos, e o diagnóstico foi de cirrose. Por isso, precisamos ter muita atenção a essas substâncias.

Trabalhar na Hepatologia é muito gratificante e estimulante, até porque atuo em diferentes etapas do cuidado. Faço biópsia hepática, realizo elastografia e tenho muita intimidade com o fígado, o que me traz muito prazer.

O grande ponto é que as pessoas, às vezes, não estão acostumadas a valorizar as enzimas hepáticas chamadas TGO (AST), TGP (ALT) e gama-GT. Essas enzimas são extremamente importantes porque podem dar os primeiros sinais de que está ocorrendo uma agressão ao fígado.

É importante orientar e incentivar as pessoas a fazerem check-ups, incluindo a avaliação da saúde do fígado, para verificar como ele está. Muitas substâncias, medicamentos e bebidas alcoólicas são metabolizados pelo fígado e podem agredi-lo. Quando essa agressão persiste, pode levar à cirrose de forma silenciosa.

Nem sempre as hepatites e as inflamações no fígado provocam sintomas. Na grande maioria dos casos, são assintomáticas. A presença de gordura no fígado é um exemplo. Antigamente, a gordura no fígado era vista como algo inocente, uma gordurinha. Hoje, sabemos que ela participa ativamente da síndrome metabólica e está associada às doenças hepáticas esteatóticas, que atingem cerca de 30% da população mundial.

Atualmente, temos a possibilidade de fazer diagnósticos mais precisos e oferecer tratamentos com maior rapidez e eficácia. O problema é o custo, como ocorre com medicamentos para emagrecimento, a exemplo da semaglutida, quando bem indicada e associada a mudanças no estilo de vida.

Jornal Valença Agora: Qual seria hoje a doença que mais preocupa o mundo?

Dr. Martoni Silva: Na área da Hepatologia, a doença que hoje mais preocupa o mundo e que, até 2030, deverá ser uma das principais responsáveis por colocar pacientes na fila de transplante hepático é a doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, conhecida pela sigla MASLD, ou doença gordurosa do fígado.

Essa é uma das doenças mais preocupantes. A prevalência mundial é de aproximadamente 30%, e ela pode levar ao câncer de fígado e à cirrose hepática, mas, acima de tudo, aumenta o risco cardiovascular.

Nas pessoas que têm síndrome metabólica associada à gordura no fígado, a principal causa de morte é a doença cardiovascular. Se avaliarmos esse paciente de maneira criteriosa e identificarmos o grau de fibrose, especialmente quando é significativo, ou seja, superior ao grau 2, pode haver indicação de um tratamento mais agressivo e rápido para evitar que evolua para câncer de fígado ou cirrose hepática.

Os estudos mostram que a presença de fibrose significativa está associada a maior risco de infarto e de outros eventos cardiovasculares. Portanto, no paciente com síndrome metabólica, avaliamos a fibrose também para conhecer melhor seu risco cardiovascular.

Com experiência no atendimento a pacientes com hepatites virais, cirrose e outras doenças do fígado, Dr. Martoni Silva aborda os desafios da prevenção e do tratamento (Foto: Jornal Valença Agora)

Jornal Valença Agora: A Uniclin Pró-Saúde conta com especialistas voltados para as doenças do fígado. Como alguns sintomas não são diretamente associados a esse órgão, qual mensagem você deixa para a população ficar atenta?

Dr. Martoni Silva: Os sinais das doenças hepáticas preocupam porque elas são silenciosas. A doença hepática pode alterar os exames laboratoriais de maneira muito discreta, pouco expressiva, e isso pode não chamar a atenção de muitos profissionais de saúde.

O que mais chama a atenção não são exatamente os sintomas, porque as doenças hepáticas normalmente evoluem de maneira silenciosa. O mais importante é fazer uma revisão periódica da saúde e um check-up do fígado. Avaliar as enzimas hepáticas TGO e TGP, também chamadas AST e ALT, além da gama-GT, já nos ajuda muito a identificar se o fígado está sendo agredido, mesmo que isso aconteça de forma silenciosa.

Muitas vezes, a pessoa diz: “Estou com um gosto amargo na boca, deve ser meu fígado”. Até pode haver alguma relação, mas provavelmente pode ser gastrite, consumo excessivo de álcool ou até o tabagismo no dia a dia.

A manifestação que mais preocupa é aquela relacionada a uma doença aguda ou a uma doença que está avançando e começa a provocar sinais como olhos amarelados. Quando os olhos ficam amarelos, a urina escurece e as fezes ficam claras, isso pode indicar colestase e representar um quadro mais agressivo.

Precisamos chamar atenção para uma questão: as doenças hepáticas podem evoluir para cirrose, e a cirrose significa perda de qualidade de vida.

Quando você tem um grau avançado de fibrose, grau 3 ou grau 4, que corresponde à cirrose, passa a ter um risco maior de desenvolver câncer no fígado. Hoje, vemos pacientes que foram curados da hepatite C no passado, mas que não tiveram uma avaliação específica da fibrose hepática e agora apresentam câncer de fígado.

Se o grau de fibrose tivesse sido avaliado anteriormente, teria sido possível seguir o protocolo indicado, com a realização de ultrassom a cada seis meses. Dessa forma, se surgisse uma lesão hepática sugestiva de câncer, o paciente teria a chance de receber um tratamento curativo ou menos agressivo.

Isso não ocorre com a frequência desejada, porque muitas pessoas não estão olhando para essa questão, não estão olhando para o fígado. Consequentemente, o diagnóstico acaba sendo tardio.

Jornal Valença Agora: A utilização das chamadas canetas emagrecedoras tornou-se muito popular, mas esses produtos também são medicamentos. Qual mensagem você deixa para a população sobre o uso consciente?

Dr. Martoni  Silva: As canetas emagrecedoras aprovadas pela Anvisa, pelo FDA e pela Agência Europeia são excelentes medicamentos, revolucionários. O que precisamos combater é a falsificação, a falcatrua e a prática da Medicina voltada apenas para ganhar dinheiro.

Voltando às canetas, são medicamentos excelentes e revolucionários, que podem diminuir o risco cardiovascular. Inicialmente, foram indicados para o controle glicêmico e começaram a ser utilizados no tratamento do diabetes. Com o decorrer do tempo, estudos de vida real mostraram que esses medicamentos também contribuem para a perda de peso, o melhor controle glicêmico, a proteção renal e o tratamento da esteatose hepática, a gordura no fígado.

Hoje, a semaglutida tem indicação para determinadas situações relacionadas à gordura no fígado. Obviamente, não vamos indicar o medicamento apenas porque a pessoa apresenta gordura no fígado. Precisamos avaliar se ela também tem síndrome metabólica e esteato-hepatite metabólica.

Quando a semaglutida é indicada, o paciente pode perder peso, melhorar o controle glicêmico e reduzir a gordura no fígado. Isso significa diminuir o risco cardiovascular e o risco de morte, melhorar a qualidade e a expectativa de vida e reduzir o risco de evolução para cirrose e câncer de fígado.

Tudo isso precisa estar associado, obviamente, a uma mudança no estilo de vida. Não basta fazer uso de medicamentos. A mudança de hábitos, com atividade física e alimentação adequada, também é importante para alcançar uma melhor qualidade de vida.

Jornal Valença Agora: Como você avalia a Pró-Saúde atualmente, considerando a diversidade e a qualidade dos serviços oferecidos à população de Valença e do Baixo-Sul, que muitas vezes precisaria recorrer à capital para ter acesso a esse atendimento?

Dr. Martoni Silva: A Pró-Saúde é realmente um local onde você consegue ter a solução dos seus problemas de maneira mais rápida, porque tem tudo com fácil acesso. Há profissionais de diferentes áreas. Quando falamos em síndrome metabólica, por exemplo, temos cardiologista, nutricionista, hepatologista e exames que vão ajudar a direcionar o diagnóstico e indicar a terapia adequada.

Isso não vale somente para essa área, mas também para outras especialidades. Vemos que a clínica não para de crescer. Acho que é uma clínica que tem tudo para abrir um Day Hospital e, quem sabe, no futuro, participar de um hospital privado.

Jornal Valença Agora: Como foi a experiência de entrar em contato com Ronald Neto e Dr. Ronald para integrar a equipe da Pró-Saúde?

Dr. Martoni Silva: Fui eu que entrei em contato com eles. Eles não sabiam exatamente se eu estava aqui ou não, porque foi algo muito repentino. Entrei em contato com o Dr. Ronald e perguntei qual era a possibilidade de trabalhar com eles.

Ele prontamente abriu as portas, e eu me senti emocionado, obviamente. Está fluindo bem. Já faz mais de um ano que estou aqui, e temos feito um trabalho muito bacana de parceria.

Sinto-me honrado quando ele me liga e pede para atender um paciente dele, porque, para mim, ele tem feito muito pela saúde da região. Isso me faz lembrar meu pai e me dá a oportunidade de ajudar ainda mais a população daqui.

Jornal Valença Agora: Quais são suas considerações finais?

Dr. Martoni Silva: Quero agradecer a oportunidade de estar aqui participando do seu jornal e de ver as páginas do jornal em que tem uma homenagem ao meu pai. Eu não morava aqui, mas levei comigo as páginas do jornal que homenageavam meu pai, com vários colegas dele. Hoje, estou trabalhando com um desses colegas que aparece no jornal, o Dr. Ronald, e isso me traz grande satisfação e entusiasmo.

Tenho sede de trabalhar, vontade de trabalhar e vontade de ajudar as pessoas. Estou aqui e acho que ainda tenho muito a contribuir. Obviamente, estou apenas começando em Valença e na região. Acho que minha história aqui será muito longa, assim como foi a do meu pai.

 

 

 

 

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