Por Carollini Assis – Jornalista DRT 2410 | Imagens: Divulgação/Carollini Assis

No dia 26 de novembro de 1947, nascia, em Amparo, no interior de São Paulo, uma menina que dedicaria toda a sua vida ao movimento. Talvez fosse apenas uma coincidência. Ou talvez alguns encontros já tragam consigo uma delicada vocação para o destino. Mas décadas mais tarde, Vera Lúcia Lourenço Franco escolheria viver em Valença, cidade que tem Nossa Senhora do Amparo como padroeira. É bonito imaginar que o mesmo nome que marcava sua terra natal também a acolheria na terra onde construiria sua história. Como se um amparo conduzisse ao outro.

Em 1979, Vera chegou a Valença trazendo consigo mais do que uma formação universitária. Trouxe uma ideia de futuro quando esse futuro ainda começava a ser desenhado. Formada em Educação Física, integrou a primeira turma da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Numa época em que a profissão ainda consolidava seu espaço como ciência da saúde e do movimento, escolheu fazer do interior da Bahia o lugar onde esse futuro começaria a ganhar corpo.

Fundou a Academia Plena Forma, um nome que traduzia exatamente sua compreensão do ser humano. Para Vera, não bastava fortalecer músculos. Era preciso desenvolver a sensibilidade, a disciplina, a criatividade e a alegria de estar em movimento. Seu trabalho nunca se limitou ao exercício físico. Transformava aulas em experiências e alunos em protagonistas.

A dança, a ginástica e a expressão corporal encontravam, em suas mãos, a linguagem da arte. Os espetáculos produzidos pela Plena Forma tornaram-se parte da memória afetiva de Valença. Crianças e jovens ocupavam os palcos para apresentar releituras do Sítio do Picapau Amarelo, da Turma da Xuxa e coreografias de ginástica rítmica cuidadosamente concebidas.

Quem viveu a cidade nos anos 1980 talvez ainda guarde uma dessas imagens na memória. Na Praça da República, em frente à Primeira Igreja Batista, meninas de collants cor-de-rosa, polainas e sapatilhas dançavam ao som de “Amigo do Sol, Amigo da Lua”, de Benito di Paula. A novela A Gata Comeu vivia seu auge, e assim como o Clube dos Curumins da novela, as Curumins da Academia Plena Forma transformavam um domingo comum numa celebração da infância, da amizade e da arte.

A formação humanista que Vera Franco proporcionava àquelas crianças continua presente em suas escolhas de vida, em suas memórias e na maneira como enxergam o mundo. Muito antes de se falar em formação integral, ela já compreendia que educar também era ampliar o imaginário.

Por isso, quando o Centro de Cultura Olívia Barradas foi inaugurado, em 1986, primeiro grande equipamento cultural voltado ao público valenciano, a presença de Vera foi natural. Ela participou ativamente daquele momento histórico porque compreendia que educar o corpo também era educar o olhar, a sensibilidade e a capacidade de uma comunidade reconhecer-se na arte.

Em 1994, depois de anos de trabalho, perseverança e fé no que construía, Vera realizou um dos maiores sonhos de sua trajetória: inaugurou a piscina da Academia Plena Forma. Naquele tempo, uma estrutura como aquela era privilégio de clubes e residências

particulares. Pela primeira vez, a comunidade passava a contar com aulas de natação, hidroginástica e atividades aquáticas orientadas por profissionais.

Na cerimônia de inauguração, o padre Edgar Silva Filho abençoou o novo empreendimento. Ao perceber que aquele era o dia de São Lucas, padroeiro dos médicos, pronunciou palavras que o tempo transformaria em profecia: “A água é vida. Você ainda colherá grandes frutos desse trabalho.” E colheu.

A reabilitação tornou-se uma das mais importantes marcas da Academia Plena Forma, devolvendo movimento, autonomia e esperança a inúmeras pessoas. Mais uma vez, Vera compreendia que a Educação Física não se limitava ao desempenho. Seu compromisso sempre foi com a vida.

Valença também lhe deu o mais precioso dos presentes: a maternidade. O nascimento de seu filho, João Paulo, abriu um novo capítulo de sua história. Entre aulas, ensaios e apresentações, ele cresceu nos bastidores da academia, brincando entre figurinos, equipamentos diversos, tecidos e cenários. Enquanto tantas crianças descobriam a dança e a ginástica sob seu olhar, ele vivia uma infância bordada por música, cores e fantasia.

Em 2016, Vera recebeu uma das mais belas homenagens que um profissional do esporte pode receber: foi escolhida para conduzir a Tocha Olímpica durante sua passagem por Valença. A chama que percorreu o mundo encontrou as mãos de alguém que, durante décadas, manteve acesa outra chama: a do cuidado, da educação e da transformação pelo movimento.

Nos últimos anos, a saúde exigiu que ela se afastasse da rotina profissional. Mas o legado de Vera jamais dependeu de sua presença física. Permanece nas centenas de alunos que ensinou, nos espetáculos que encantaram gerações, nos profissionais que inspirou, nos espaços que ajudou a criar e na própria história da Educação Física valenciana.

Vera Franco chegou a Valença não apenas para viver. Chegou para transformá-la.Muito antes de se falar em interdisciplinaridade, ela já unia Educação Física, dança, teatro e cultura em um mesmo gesto. Ensinou que mover o corpo também pode ser uma forma de contar histórias, de construir vínculos, de fortalecer comunidades e de imaginar futuros.

Por isso, sua trajetória jamais poderá ser contada apenas como a de uma professora de Educação Física. Quase meio século depois da sua chegada às terras de Nossa Senhora do Amparo, é possível compreender a dimensão desse pioneirismo. Vera Franco não apenas acompanhou a história da Educação Física valenciana: ajudou a escrevê-la. Formou gerações, inspirou profissionais, ampliou horizontes e fez da Academia Plena Forma um espaço onde o movimento sempre significou muito mais do que exercício. Significou encontro, arte, cuidado e transformação.

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