araken-galvao

Não há dúvida, pelo menos para mim –, e isso significa que não existe dúvida para um leigo – que o século XX foi o período de ouro da música popular brasileira, tomando por referência o samba, nosso ritmo representativo por excelência. Faço esta afirmação não com o apoio de nenhum especialista, apenas por dedução, ainda que esta palavra (especialista) esteja bastante desmoralizada, em particular devido a que os noticiários da TV estejam sempre apelando para a opinião de ditos especialista (desde que estes “opinadores” emitam opiniões que coincidam com o que a emissora deseja propalar), na verdade são verdadeiros boécios que recebem alguns tostões para propalarem versões, com o único objetivo de consternar a chamada opinião pública (que só existe em função do que é publicado) fazendo-a latir para defender os interesses da grande imprensa. Esses indivíduos são conhecidos atualmente como “achista”, os quais têm sempre um palpite a dar sobre quaisquer assuntos, o que me leva a não acreditar neles, até mesmo porque todos têm o direito a ter opiniões, até as mais descabeladas. Ademais – isso em segundo lugar – por ter a minha e, raramente necessitar da alheia, o que me leva também a deduzir que os meios de comunicação no Brasil não têm nenhum compromisso com a verdade factual dos fatos, predominam nos noticiários a defesa, sem muita preocupação em mentir de cara limpa – apelando-se para a forma popular de se expressar – em defesa dos interesses particulares dos empresários donos dos meios de comunicação.

Dessa forma sou muito prudente em minhas pesquisas, quando desejo escrever algo sobre fatos ocorridos em um período em que vivi de perto a ocorrência. Tendo nascido na década de 30, do século XX, na minha adolescência tive o ensejo de ter visto muita coisa sucedida nas décadas seguintes (e até ter ouvido falar do que ocorrera em décadas passadas), afinal os meios de comunicação não tinham a velocidade dos dias atuais; por isso prefiro consultar a minha memória e, a partir dela, tirar minhas conclusões, sem temor de confrontar, se for o caso, as minhas lembranças com o veredito dos “especialistas”.

Esta manhã de sábado, início do Carnaval de 2016, recordei-me de uma música cuja letra veio-me à mente por meio da voz de uma mulher, a qual falava das bobagens que o seu amor – chamado na canção de moreno – teria feito[1].

Nesta canção aparecem algumas expressões do tipo peignoir, demonstrando que ainda imperava a influência francesa, na moda; mas significando que a presença econômica dos ingleses já era muito forte – aliás, essa presença nunca foi relevante no terreno da moda feminina, ainda que sobressaísse bastante na forma dos homens se vestirem – no campo do que poderia ser chamado de militar, uma vez que aparece a controvertida expressão, escrita em português, “para inglês ver”, a qual os estudiosos brasileiros mais sérios ainda não chegaram a um consenso sobre a origem.

E se não existe uma explicação para a acima conhecidíssima e controvérsia expressão “para inglês ver”, cujo sentido o Houaiss define como “para efeito de aparência, (aquilo que é) sem validez”. A mais aceita, e que me parece também a mais plausível[2], é a que apresentou o filólogo João Ribeiro em seu livro “A língua nacional”: no tempo do Império, as autoridades brasileiras, fingindo que cediam às pressões da Inglaterra, tomaram providências de mentirinha para combater o tráfico de escravos africanos – um combate que nunca houve, que era encenado apenas “para inglês ver”.

Outros, com bastante perspicácia, questionam que:

Se a origem estivesse no Brasil, Portugal não utilizaria a mesma expressão[3]. Antes da independência brasileira, pois quando das invasões napoleónicas que levaram que a corte portuguesa viesse para o Brasil (que também levou à Independência), os ingleses ajudaram a combater as forças francesas e estiveram uns tempos em Portugal. Esse termo usado quando se faz algo superficial sem conteúdo substancial “é para Inglês” ver, ou seja, é para enganar os tolos, “para não mostrar pobreza ou incompetência”, diz ainda o texto que estou usando quase na íntegra para desenvolver meu argumento.

No entanto a simples citação dessa expressão popular, pode nos levar a algumas indagações: por serem de origem obscura, mas fartamente aceita, todos ou muitos desejam ser o pai da criança (outra expressão popular), chamando para si a primazia de descoberta da verdadeira origem – e isso ocorre com vários outros temas e assuntos –, dando origem a polêmicas inócuas. Por outro lado, ao expor aqui algumas facetas dessa expressão, veio-me a mente outra característica, quiçá danosa, da sociedade humana, aquela que levou ao pensador francês afirmar que “o inferno são os outros”. Significando isto que o diferente quase sempre não é aceito com facilidade. Ontem mesmo ouvi, em um desses programas que falam dos emigrados brasileiros, uma jovem repórter dizer: “os brasileiros podem deixar o Brasil, mas não conseguem tirar o Brasil de dentro de si[4]”. Meu avô costumava repetir um dito sertanejo: “em terra que você não foi jatobá dá na raiz”. O que me leva a citar a reação dos meus netos (5 e 8 anos), cujo pai, mesmo sendo uma pessoa íntegra, pensa que devido a alta tecnologia existente na terra do tio Sam, que lá seja um pouco o paraíso; porém, ao levar as crianças para visitá-la, depararam com um problema: os meninos reclamando, desejando voltar para o velho e maltratado Brasil, porque lá não serviam refeições com – pasmem! – feijão. E só não voltaram antes do tempo por terem descoberto um restaurante de mexicanos onde serviam essa iguaria.

No próximo artigo continuarei falando da expressão “Para inglês ver”.

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[1] O título é: “Fez Bobagem”, da autoria de: Assis Valente – 1934 – gravação de Carmen Miranda, cuja letra diz: “Meu moreno fez bobagem/ Maltratou meu pobre coração/ Aproveitou a minha ausência/ E botou mulher sambando no meu barracão/ Quando eu penso que outra mulher// Requebrou pra meu moreno ver/ Nem dá jeito de cantar/ Dá vontade de chorar/ E de morrer// Deixou que ela passeasse na favela com meu peignoir/ Minha sandália de veludo deu à ela para sapatear/ E eu bem longe me acabando/ Trabalhando pra viver/ Por causa dele dancei rumba e fox-trote/ Para inglês ver”

[2] http://www.significados.com.br/para-ingles-ver/

[3] http://www.dicionarioinformal.com.br/para%20ingl%C3%AAs%20ver/

[4] Vivemos um momento em que, para determinados jovens (talvez por não saberem que o inferno são os outros), vão em busca do paraíso, pensando que ele está nos Estados Unidos. Vão para lá, em sua maioria, são descriminados como latino cucaracha, e sentem-se felizes, afinal chegaram, mesmo como cidadãos de segunda classe, iludem-se que são felizes, por viverem naquele mundo. Haja falta de personalidade!

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