A estudante do 9º ano da Escola Municipal Dario Galvão de Queiroz, Isabela Costa Sousa venceu a etapa estadual da 5ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa (OLP) Escrevendo o Futuro!, onde concorreu com textos de escolas municipais, estaduais e federais de todo o Estado. Agora, Isabela é a representante da Bahia na etapa regional que acontece de 08 a 10 de novembro, em Porto Alegre (RS) e que selecionará os 38 finalistas da categoria “crônica”, a qual Isabela concorre com 125 estudantes de todo o Nordeste. Leia a crônica vencedora, de autoria da estudante Isabela Costa, ao final da matéria.

Participam presencialmente da etapa regional os alunos semifinalistas e seus professores. A valenciana Isabela participa da Olimpíada com a professora Diene de Farias Couto da Silva. As viagens são totalmente custeadas pelos realizadores da Olimpíada, Governo Federal, por meio do Ministério da Educação (MEC) e Fundação Itaú Social.

“Iniciamos as oficinas da OLP em março. Isabela, desde o início, se interessou e participou efetivamente de todos os trabalhos. Acreditou que seria possível, fez e refez várias crônicas, seguindo todas as orientações e estudando sobre o assunto, até adquirir a maturidade que apresenta na sua crônica final, que foi a vencedora”, destaca a professora Diene de Farias, acrescentando que o percurso até aqui foi longo, mas que “valeu muito a pena”.

Ainda para a professora Diene, a conquista de Isabela é um estímulo para que os alunos valorizem mais oportunidades como a OLP. “Infelizmente, quando fazemos, em sala de aula, a proposta de trabalho, a maioria dos alunos não acreditam que são capazes e, por conta disso, não seguem as orientações do professor, dizem ser o trabalho muito difícil e cansativo, e desistem na linha de largada. É preciso que os alunos aceitem os desafios e deem o melhor de si, para que mais vitórias aconteçam’, aconselha.

A 5ª Edição da Olimpíada de Língua Portuguesa

A Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro é um concurso de produção de textos para alunos e professores de escolas públicas brasileiras, do 5º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio.

Iniciativa do Ministério da Educação e da Fundação Itaú Social, com coordenação técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), em 2016 promove sua 5ª edição.

O tema escolhido é “O lugar onde vivo”, que propicia aos alunos estreitar vínculos com a comunidade e aprofundar o conhecimento sobre a realidade, contribuindo para o desenvolvimento de sua cidadania.

Leia abaixo a Crônica vencedora da etapa estadual da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro!, de autoria da estudante valenciana Isabela Costa.

Com os olhos abertos

Era uma manhã de sexta-feira, umas 7h, a cama quentinha, o ventilador em minha direção e o canto dos pássaros vindo do quintal, como de costume nas manhãs de sol. Ali estava eu, aos roncos, em um sono gostoso, até sair da cama com um só pulo, assustada com os “berros” do despertador, vindos do celular ao lado do travesseiro. Lembrei-me da pesquisa de campo para a OLP que iria acontecer naquela manhã. A professora, minhas colegas e eu iríamos à Feira Livre, no Centro de Valença-BA, procurar fatos e ideias para nossas crônicas. Em poucos minutos, me aprontei, peguei meu café e fui tomá-lo na sala, assistindo TV, como faço todos os dias. Ao me sentar no sofá, fixei o olhar na televisão, quando estava sendo citada uma frase exposta em um posto de gasolina: “Não fale da crise… trabalhe!”. Não dei atenção ao fato, mudei de canal, e me dei conta do horário. Corri à escola, ao encontro do pessoal, para seguirmos em nossa busca.

assinaturaJá a caminho, meus olhos prontos para flagrar qualquer cena, um mínimo detalhe que pudesse ser transformado em minha melhor crônica e, não sei por que, me dei conta de que a frase ouvida no noticiário não me saía da cabeça. Chegando à feira, de imediato chamamos a atenção das pessoas, claro, não é comum aparecer ali um grupo de alunas concentradas, olhos esbugalhados para observar tudo, caneta e caderno nas mãos. Enquanto caminhávamos juntas, o fiscal se aproximou, expressando curiosidade, e perguntou: “Precisam de ajuda?”. A professora explicou que se tratava de um trabalho escolar e agradeceu a atenção.

O som ininterrupto das buzinas dos carros no entorno da feira, as frutas e legumes expostos nas bancadas, em lonas estendidas no chão, nas carrocerias dos carros compunham o ambiente. O cheiro intenso da tangerina, milho verde para todos os lados, amendoim, laranja, aipim, quiçare, genipapo, pimenta cumari e malagueta etc., tantas cores, sabores, perfumes, quase desviaram minha atenção.

Ao nos separamos, me deparei com cenas que até então eram insignificantes para mim: um movimento contínuo, pessoas indo e vindo, comprando, vendendo, barganhando, trabalhando sem parar, homens carregando sacos enormes de farinha de mandioca torrada e ainda quentinha, exalando um aroma gostoso, enquanto o suor escorria pelas costas nuas de alguns, ou ensopava as camisas de outros. Eram visíveis em muitos as marcas impressas pela pobreza, nas vestes amarrotadas, nos dentes faltos, escurecidos ou estragados, na necessidade de trabalhar dos garotos com seus carrinhos de mão. A pele manchada e as rugas profundas dos agricultores que vinham de suas roças para vender seus produtos fresquinhos revelavam a dureza do trabalho realizado sob sol e chuva, trabalhadores que, por várias razões, não tiveram oportunidade de estudar ou trabalhar com melhores condições e cuidados pessoais. Contudo, o sentimento que impregnava o ambiente era a alegria expressa generosamente no sorriso abundante daqueles trabalhadores que se empenhavam em conquistar os clientes e garantir o sustento da família, além de fazer um bem à comunidade valenciana, é claro.

Ao observar tudo aquilo, de súbito, me lembrei das palavras que tão pouco me importaram antes: “Não fale da crise… trabalhe!”, e uma chuva de reflexões inundou minha mente. Aquelas pessoas trabalham tanto e, muitas vezes, não são valorizadas como deveriam. Ainda assim, não se via em seus rostos qualquer sinal de vitimização, ou atitudes de desânimo, ao contrário, a vida vibrava como uma dádiva, como uma celebração por poder viver um dia após o outro, com disposição, resignação e gratidão, pois, apesar das muitas dificuldades, sabem o valor do trabalho honesto, que lhes garante o sono tranquilo e a paz na consciência.

De fato, já fui à feira inúmeras vezes, mas, naquele dia, vi, diante de mim, um espetáculo enigmático, que sempre esteve em cartaz, mas que, até então, eu não havia aberto as cortinas dos meus olhos para contemplar e aprender a ver mais de perto aqueles que não deixam o espetáculo parar, que, além de trabalhadores, são pessoas, com suas dores, suas histórias, seus encantos. Para ver, basta um minuto de conversa, um olhar atento, um coração aberto.

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