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Afinal não encontrava beleza – na literatura dita pós-moderna –, carente de uma história para ser contada, daquilo que alguns chamam de argumento e os cantadores do sertão secularmente chamavam de “enredo” ou quebra-cabeça, jogo de palavras, do tipo que fazem os cegos violeiros. Recurso esse que tem sido utilizado, de forma criativa – uma vez que está intimamente associado à alma do nosso povo nordestino – por meio do trabalho de um Ariano Suassuna, de um Patativa do Assaré, de um Alceu Valença e até por um Caetano Veloso, entre outros.

Na língua espanhola, conheço os casos de Nicolas Guillén que, em sua poesia, o fez de forma muito bela, lançando mão de termos em inglês, falado pelas pessoas do povo, dos extratos mais pobres da sociedade, e de Cabrera Infante, que o fez de forma muito chata e cansativa. Aliás, diga-se de passagem, o “Joyce cubano” de Sérgio Augusto, consegue ser mais chato – pelo menos em “Três Tristes Tigres” – do que o “Cabrera de Irlanda”. Definitivamente a forma de acompanhar as “diabruras” do texto literário, dito moderno ou pós-moderno, que fazem as delícias dos acadêmicos ao analisarem os “discursos”, de um Joyce, por exemplo, não me dizia muito. Ainda que – mesmo contrariando em parte o que disse o filólogo Segismundo Spina, a quem citei – gosto de “Grandes Sertões”, apesar das “diabruras” da linguagem, porque Guimarães Rosa nos conta uma magnífica história.

Embora nunca tenha me atrevido a falar sobre poesia, fazendo eco ao que disse o filólogo Segismundo Spina, sou obrigado a concordar (e dobrar-me humildemente), pois creio ser verdade que “A verdadeira poesia conserva suas características iniciais: ritmo, cadência, é um jogo de imagens e metáforas. Ela possuiu uma coisa que geralmente os poetas modernos não têm: que é a expressão do inefável, do sonho, daquilo que está na periferia da realidade, não na realidade.”

A minha ojeriza aos textos de ficção (a todos eles, mas não é o caso de referir-me aos que não entendo) muito emproados, talvez tenha uma origem não muito nobre, uma vez que, desde muito jovem acostumei-me em “ouvir” histórias, inclusive versões populares de clássicos da literatura europeia ou mesmo de obras da mitologia grega ou romana – não sei se vindas de Portugal ou da lavra dos nossos sertanejos –, lembro-me com alguma perplexidade da “versão” popular de Decamerão, da qual já falei em alguns dos outros trabalhos meu, no caso, de ficção.

Por essa formação “de ouvido” e por esperar sempre que toda obra me conte uma história, ou seja, que possua um argumento – a forma como este argumento me é exposto não importa. Aliás, dou até preferência às história narradas de forma fragmentada, com idas e vidas em tempos diferentes. Prefiro assim, só não suporto malabarismos verbais.

Por essa razão odiei um trabalho de Robert Grillet (1922-2008) e até me recusei a ler um dos seus livros, por ter visto um filme baseado em uma obra sua. E eu que, naquela época, apaixonado por cinema como era, assistia filmes até por vício.

anunciePor essa via já trilhada, tive um sério atrito (a distância, pois ele nunca soube. Aliás, nunca soube que eu existia, diga-se de passagem) com um diretor a quem muito admirava: Alllan Resnais (1922-2014), diretor cujas obras, algumas delas, impressionaram-me sobremaneira, principalmente (devo confessar) devido a posições políticas abertamente expostas, porém feitas com classe. Vi seus filmes quando me encontrava exilado em Montevidéu, já frequentando a Faculdad de Humanidades. Tinha lido muitas críticas – todas elogiosas – e, por isso, aguardava com ansiedade cada novo filme seu, quando foi lançado “O ano passado em Marienbad” (L’Année dernière à Marienbad), de 1961.

Esse filme era tão chato que quase aniquilou de vez o respeito que tinha pela obra de Resnais. Tentei vê-lo mais de uma vez, mas na segunda sessão, sai na metade, terrivelmente entediado. Alguma coisa não estava funcionando bem comigo, logo eu que era habituado a assistir várias vezes seguidas os bons filmes, como foram os casos, por exemplo, de “Guerra e Humanidade” (Nigen no Joken, de Masaki Kobayaski, de 57/61, com mais de nove horas de duração, dividido em três partes). E a obra de Satyajit Ray, também uma trilogia e com quase essa mesma duração e também dividido em três partes, de 1955/56/57, com os títulos de “Canção da Estada” (Pather Panchali), “O Invencível” (Aparajito), “A Pedra Filosofal” (Paras Pathar), respectivamente. Da mesma forma que veria depois filmes como “Imagens” (Images, de Robert Altman, 1972) e “Malpertuis” (Malpertuis, de Harry Kumel, de 1972), os quais assisti quatro e seis vezes consecutivas, sem cansar, e extasiar-me cada vez mais. E, vez ou outra, ainda os assisto, como ocorre com alguns faroestes.

O mesmo sucedeu-me com os “meus quatro romances de cabeceira”, são eles: “Beira Rio – Beira Vida”, de Assis Brasil; “Respiração Artificial”, de Ricardo Piglia; “Dança Imóvel”, de Manoel Scorza; “Um Belo Domingo”, de Jorge Semprun. Esses são os livros mais importantes de minha vida, os que mais me impressionaram e que, sempre que os volto a lê-los, não paro de extasiar-me. Poderia colocar ainda, junto com esses quatro romances, o conto de Julio Cortazar, “Senhorita Cora”, um primor de estrutura narrativa.

Essa afirmativa, porém, não implica que sejam somente essas as obras fundamentais em minha vida. Como o disse em um velho texto para teatro que escrevi, quando morei no Peru, “alguns (são) importantes; outros imprescindíveis”.

A verdade, porém, é que – isso imagino eu – da mesma forma que tomamos o nosso doce ou sorvete preferido sempre que temos oportunidade e encontramos aquele sabor ou aquele doce, sucede o mesmo com nossa comida preferida, qual a nossa mãe sempre nos espera, quando ausente, voltamos a casa, as nossas obras preferidas, aquelas que nos chegam ao fundo do coração aguçando completamente nossa sensibilidade, lemos ou assistimos várias vezes e nunca nos cansamos.

Por que será, hem?

 

Valença, BA, 28 de janeiro de 2016

© Araken Vaz Galvão

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