Professor Dr. Gilson Antunes da Silva (IFBAIANO) – orientador; Samara de Oliveira Dias – Estudante do Curso Integrado em Agroecologia (IFBAIANO) e bolsista CNPq júnior.

O processo avançado de globalização, por um lado, trouxe contribuições inquestionáveis ao desenvolvimento da humanidade. Mas, por outro, trouxe consigo enormes problemas que foram surgindo ao longo da sua configuração: crise ética, crise moral e – principalmente – crise ecológica. Esta, por sua vez, desdobra-se visivelmente nas mudanças climáticas em todo o planeta, no aquecimento acelerado da Terra e no efeito estufa, na explosão demográfica e nos vários problemas daí advindos, no aumento da emissão de gases poluentes, na presença maciça de elementos químicos derramados nos rios e mananciais, na extinção de diversidades biológicas e no desequilíbrio do ecossistema. Nesse sentido, a biosfera como um todo encontra-se muito ameaçada e, diferentemente das crises do passado em que se podia revitalizar o ambiente natural, esta do presente não sugere recuperação alguma frente ao esgotamento dos ciclos biológicos dos ecossistemas. Segundo Leonardo Boff, “A Terra não é infinita, pois se trata de um planeta pequeno com recursos limitados, muitos deles não renováveis, e o crescimento não pode ser infinito e indefinido porque não pode ser universalizado, pois, como foi calculado, precisaríamos de outros três planetas iguais ao nosso” (BOFF, 2004, p. 15). A situação, portanto, assume contornos emergenciais e precisa, com muita urgência, do comprometimento de toda a sociedade. É nesse contexto problemático e de compromisso urgente que surge o Jornal Valença Agora no Baixo Sul baiano, atento aos problemas da região e propondo mudanças para seu entorno.

Pensando nessa relação, desenvolvemos um projeto de pesquisa no IFBAIANO (campus Valença, chamada interna PROPES nº 02/2016), financiado pelo CNPq, a fim de verificar como esse Jornal apresenta indícios ou marcas que sugerem caminhos para a formação de sujeitos ecológicos. Verificamos como esse veículo de formação de opiniões e de identidades tem contribuído para educar cidadãos e transformar a realidade local. Utilizamos como metodologia a Análise de Conteúdo, que é “um conjunto de técnicas de análise das comunicações. Não se trata de um instrumento, mas de um leque de apetrechos; ou, com maior rigor, será um único instrumento, mas marcado por uma grande disparidade de formas e adaptável a um campo de aplicação muito vasto: as comunicações (BARDIN, 2004, p. 31). Para tanto, analisamos 52 edições do Valença Agora, publicadas em 2015. A fase da exploração do material consistiu em buscar, no corpus escolhido, os textos que abordam o tema investigado. Feita essa identificação, o passo seguinte foi analisar tais textos e procurar indícios da formação do sujeito ecologicamente orientado. Ao longo dessa fase, estabelecemos categorias de análise a partir daquilo que os textos nos ofereciam. Enquadramos esses textos em gêneros variados e quantificamos aqueles que versam sobre o tema e, por fim, confrontamos os conceitos teóricos com as propostas de formação subjetiva encontradas nesse material.

O objetivo dessa primeira parte foi encontrar caminhos propostos pelo Jornal Valença Agora para a formação de sujeitos ecológicos. Utilizamos o conceito de sujeito ecológico a partir das discussões teóricas advindas da Psicologia Social, da Psicanálise e da Filosofia. A partir desse marco teórico, apoiamo-nos na concepção de Isabel Cristina de Carvalho (2007), para quem o sujeito ecológico é a internalização ou subjetivação de um ideário ecológico, ou seja, “um ideal de ser que condensa a utopia de uma existência ecológica plena, o que também implica uma sociedade plenamente ecológica” (CARVALHO, 2012, p. 65). Esse ideal de ser e de viver ecologicamente vai se constituindo como parâmetro orientador das decisões e escolhas de vida adotadas pelas pessoas que aderem a tais ideais. Ainda segundo Carvalho (2007), a noção de sujeito ecológico é uma forma de ser no mundo e é incorporada pelos indivíduos que adotam uma orientação ecológica em sua vida. É ainda um sujeito que sustenta a utopia dos que creem nos valores ecológicos. Não se trata de imaginá-lo como pessoa ou grupo de pessoas completamente ecológicas em todas as esferas de suas vidas ou ainda como um código normativo a ser seguido e praticado em sua totalidade por todos os que nele se inspiram. Como força resultante do encontro do indivíduo com o mundo social, essa identidade ecológica é algo que se constitui na interação. Não mais uma identidade fixa e estável, cartesiana ou detentora de um centro unificador, mas uma subjetividade descentrada, movediça e fluida que se forma socialmente a partir do confronto com o Outro (HALL, 2015). Nesse sentido, a identidade do sujeito é sempre relacional (WOODWARD, 2014).

Capa-640O processo de formação desse sujeito perpassa pela incorporação de um certo campo de crenças e valores compartilhados socialmente, que, por sua vez, passa a ser vivida como convicção pessoal, definindo escolhas, estilos e sensibilidades éticas e estéticas. Essa formação ininterrupta é atravessada pelos discursos enunciados em todas as esferas sociais: escola, meios de comunicação, igreja, família, estado, etc. A mídia, uma dessas esferas discursivas de forte incidência sobre o sujeito, tem-se tornado, conforme André Trigueiro (2003), uma potência onipresente, sofisticada e instantânea.

O Jornal Valença Agora não fica alheio a essa formação. Pelo contrário, ao longo desses anos, tem propagado e insistido no processo de construção de uma região mais sustentável. No corpus analisado, encontramos uma diversidade de gêneros textuais voltados para as questões ambientais: editorial, reportagem, notícia, anúncio, entrevista, tabela de preços, manchetes, tirinhas, charges, crônicas, campanhas publicitárias, artigos de opinião, etc. A partir da quantificação desse material, fizemos algumas interpretações. A primeira dela aponta para o compromisso do Jornal Valença Agora assumido no lema que aparece em suas edições (“O jornal comprometido com o desenvolvimento sustentável da região”). Pela quantidade de textos veiculados nessas edições, é flagrante a execução desse objetivo. Com isso, ele cumpre também a tarefa de apontar caminhos para a formação dos seus leitores no sentido de aderirem a uma prática ecologicamente orientada. A segunda interpretação, também aliada a essa primeira, aponta para a presença permanente de uma pauta ligada às questões ambientais. Em todas essas edições, o Jornal veicula algum conteúdo com esse direcionamento. Apesar de prevalecerem anúncios, notícias e tabelas informativas, a formação do sujeito é garantida também através de outros textos que discutem a temática de forma mais direcionada para a formação de opinião: reportagem, editorial e artigo de opinião. Enquanto os primeiros textos surgem no corpo do Jornal quase que “obrigatoriamente”, uma vez que há uma necessidade de informar ao público leitor o que acontece no Baixo Sul (embora o editor tenha a liberdade de selecionar a notícia que deseja veicular), os outros surgem a partir de uma escolha mais deliberada por parte do editor. No primeiro caso, os textos se impõem diante do jornal. É necessário veicular a notícia para que o Jornal não fique à margem dos grandes acontecimentos da região. No segundo, já fica mais a critério do editor discutir ou não a temática. Portanto, quando opta por isso, o Valença Agora reafirma seu compromisso com as questões ambientais. Em todo caso, porém, há caminhos para formar cidadãos, seja por meio de textos informativos, seja por meio de textos de natureza argumentativa, opinativa ou injuntiva.

A formação se dá, portanto, no processo de leitura desses textos de orientação ambiental. A leitura constitui um jogo de interação entre sujeito e texto e, nesse ato, o leitor também incorpora valores, ideias, comportamentos, modelos e padrões, identificando-se e, a partir disso, remodelando suas identidades. Nesse gesto de leitura, o sujeito é afetado por aquilo que lê e daí se transforma. Assim, ao entrar em contato, cotidianamente, com textos que veiculam um ideário ecológico, o leitor estará mais propenso a adotar comportamentos e medidas que convirjam para essas práticas. O Jornal Valença Agora, ao veicular textos voltados para as questões ambientais, além de fomentar essa formação, cumpre o papel de ajudar a construir uma região mais sustentável, mais preocupada com os problemas do meio ambiente.

 

REFERÊNCIAS

BOFF, Leonardo. Saber cuidar: Ética do Humano – compaixão pela terra. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. 3 ed. Lisboa: Edições 70, 2004.

CARVALHO, Isabel Cristina Moura. O sujeito ecológico: a formação de novas identidades culturais e a escola. In: MELLO, Soraia Silva de; TRAJBER, Rachel (Coords.). Vamos cuidar do Brasil: conceitos e práticas em educação ambiental na escola. Brasília: UNESCO, 2007, p. 135-41.

CARVALHO, Isabel Cristina Moura. Educação ambiental: a formação do sujeito ecológico. 4 ed. São Paulo: Cortez, 2008.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 12. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2015.

TRIGUEIRO, André. Meio ambiente na Idade Mídia. In: TRIGUEIRO, André (Org.). Meio ambiente no século 21. 21 especialistas falam da questão ambiental nas suas áreas de conhecimento. Rio de Janeiro: Sextante, 2003. p. 75-89.

WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 15. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

 

 

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