moacir-saraiva

“Quem não tem colírio, usa óculos escuros”, já dizia o saudoso Raul Seixas. Estes versos dele remetem a muitas significações, pois ele era mestre em usar as palavras conotativamente, como é próprio de um bom poeta.

Fica na cabeça do leitor o que vai ler ao ler o que o cantor baiano escreveu. O usuário deste equipamento também o utiliza conforme o momento em que vive.  Uns  utilizam para proteger os olhos de enfermidades oculares, outros apenas com o senso estético, pois segundo estes, ficam mais bonitos usando as lupas escuras.  Houve um presidente brasileiro que era vezeiro em ir para reuniões ministeriais e com outros empresários utilizando óculos escuros, mesmo em ambientes fechados. Certa feita ele disse que fazia isso para não olhar diretamente para cretinos.

Como se vê, este equipamento surgido na Alemanha, no séc. XIII, segundo os estudiosos, muito desconfortáveis,  pode ser usado por vários motivos. Ganhou requintes mais confortáveis com os franceses, no século seguinte, com o pince-nez,  e só no século XVII, foram criadas as duas hastes para dar uma melhor sustentação.

Já vi gente usar por necessidade e não para se proteger de males solares, o sujeito foi para o a Europa, passou lá uns quinze dias, era um tempo com muita neve, e no primeiro dia, após um excesso de vinho, o sujeito pisou sobre os óculos do dia-a-dia e teve de passar os demais dias usando os escuros desde que acordava até voltar para a cama.

Aqui temos um caso emblemático do uso deste equipamento indevidamente. Uma moça trabalhava em uma loja e era fim de ano, o movimento muito grande e todos os funcionários eram imprescindíveis para aquele momento. Uma das funcionárias foi acometida por uma conjuntivite e, convenhamos, é extremamente desconfortável e também desagradável permanecer em ambientes públicos, mesmo porque, ela é contagiosa.  A moça enferma, muito cuidadosa com a empresa, procurou um médico e a ela foi dado um atestado para ficar em casa se recuperando.

Diante deste documento, a patroa “ponderou” e pediu que ela trabalhasse, considerando o fim de ano que as vendas aumentavam e muito. Para isso a presenteou com um óculos escuros a fim de esconder a doença. A moça não teve outra saída a não ser atender aos “apelos” da dona do estabelecimento.

No segundo dia daquela figura estranha e única de óculos escuros, em um ambiente fechado, ela mesma tinha esta consciência disso porque todos a olhavam com um olhar de reprovação.

Neste dia, ela bastante incomodada com o que estava ouvindo, não esperava pelo que pudesse acontecer além dos dichotes que ouvira no dia anterior. Ela observou que um senhor, também de óculos escuros, passou a observar os passos dela, para onde andava o senhor a acompanhava. Até que o moço se dirigiu a ela com uma postura muito delicada e muito respeitosa:

– Bom dia senhora!

Ela educadamente respondeu ao senhor, deixando-o à vontade.

Ele, de forma bastante gentil, novamente falou para a moça de óculos escuros:

– Parabéns, gostei muito de sua loja, muito organizada, limpa, os vendedores gentis, e sabem explicar as dúvidas dos clientes. Parei apenas para parabenizar a dona da loja.

A vendedora de óculos escuros o encarou, com tranqüilidade, e respondeu com uma voz misturada de raiva e de candura:

– Moço, eu não sou a dona da loja, sou apenas uma vendedora.

O moço tomou um susto e respondeu, já não tão educadamente:

– Moça, em minha região só usa óculos escuros, em ambiente de trabalho, os proprietários, a senhora é muito pretensiosa.

*Publicado na edição impressa nº 604, do jornal Valença Agora

 

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