*Odair José R. Borges

No dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como, redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.

A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano.

Ao ser criada esta data, não se pretendia apenas comemorar. Na maioria dos países, realizam-se conferências, debates e reuniões cujo objetivo é discutir o papel da mulher na sociedade atual. O esforço é para tentar diminuir e, quem sabe um dia terminar, com o preconceito e a desvalorização da mulher. Mesmo com todos os avanços, elas ainda sofrem, em muitos locais, com salários baixos, violência masculina, jornada excessiva de trabalho e desvantagens na carreira profissional. Muito foi conquistado, mas muito ainda há para ser modificado nesta história.

Desde as primeiras e mais antigas civilizações, homens e mulheres desempenham papéis diferentes na sociedade. Por muitas décadas e até mesmo séculos, o papel da mulher foi muito generalizado: tomar conta da casa e dos filhos enquanto o marido sai para trabalhar fora. Mas, será que isso realmente está certo, será que as mulheres sempre estiveram satisfeitas com esse papel?

Na realidade, não. Mas, aos poucos a mulher tem se tornado cada vez mais importante na sociedade atual, principalmente após começar a ocupar tanto os cargos públicos como privados, nos mais variados segmentos da população.

A figura da mulher, por muitos séculos vista como secundária, começou a ganhar maior força nos dias atuais, em que esse papel é deixado de lado e a mulher assume o de protagonista. É claro que muitas são as heranças históricas de luta feminina que não podem ser deixadas para trás e é inclusive graças à elas que a mulher consegue garantir seu espaço nas mais variadas estruturas da sociedade.

Aos poucos a mulher vai deixando de lado aquela figura de ‘simples’ dona de casa para assumir grandes postos no mercado de trabalho e cargos importantíssimos em instituições de pequeno, médio e grande porte.

Mas mesmo com uma presença mais marcante no mercado de trabalho, é certo afirmar que muitas são as desigualdades que caracterizam esse público.

Além disso, outro agravante se refere aos cargos políticos. Por mais que tenhamos superado o fato de nunca colocar uma mulher na presidência o que ocorreu em 2010 com a candidatura de Dilma Rousseff, o número de homens nos poderes legislativo, executivo e judiciário ainda é maioria.

Podemos dizer que o dia 24 de fevereiro de 1932 foi um marco na história da mulher brasileira. Nesta data foi instituído o voto feminino. As mulheres conquistavam, depois de muitos anos de reivindicações e discussões, o direito de votar e serem eleitas para cargos no executivo e legislativo.

Nas últimas eleições, realizadas em 2014, o número de mulheres que se elegeram foi de apenas 10%. Além disso, cinco estados de todo o país não elegeram nem uma mulher para deputada federal.

E é exatamente tendo em vista essa desigualdade que ainda é forte, não só no Brasil e na América Latina como em uma grande extensão do Globo, que ainda mantém enraizado um passado cheio de marcas negativas para a mulher – vista como elemento para reprodução e complemento para a vida do homem – que precisamos lutar pelos direitos das mulheres.

Sendo assim, mesmo considerando o fato de que a mulher vem ganhando força na sociedade, é preciso fazer com que o papel dela seja exercido de uma forma cada vez mais livre de interesses machistas e, é claro, com base nas principais vontades e necessidades da figura feminina.

É certo afirmar que muitos são os desafios que ainda precisam ser enfrentados nesse sentido, começando com o combate do machismo impregnado ainda em muitas esferas da nossa sociedade. Vale ainda destacar que essa não é uma tentativa de combater o homem, mas sim, os pensamentos e ideais que os impõem como melhores em variados segmentos de uma estrutura social.

Em 1910, durante a II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas na Dinamarca, uma resolução para a criação de uma data anual para a celebração dos direitos da mulher foi aprovada por mais de cem representantes de 17 países. O objetivo era honrar as lutas femininas e, assim, obter suporte para instituir o sufrágio universal em diversas nações.

Com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) eclodiram ainda mais protestos em todo o mundo. Mas foi em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro no calendário Juliano, adotado pela Rússia até então), quando aproximadamente 90 mil operárias manifestaram-se contra o Czar Nicolau II, as más condições de trabalho, a fome e a participação russa na guerra – em um protesto conhecido como “Pão e Paz” – que a data consagrou-se, embora tenha sido oficializada como Dia Internacional da Mulher, apenas em 1921.

Somente mais de 20 anos depois, em 1945, a Organização das Nações Unidas (ONU) assinou o primeiro acordo internacional que afirmava princípios de igualdade entre homens e mulheres. Nos anos 1960, o movimento feminista ganhou corpo, em 1975 comemorou-se oficialmente o Ano Internacional da Mulher e em 1977 o “8 de março” foi reconhecido oficialmente pelas Nações Unidas.

“O 8 de março deve ser visto como momento de mobilização para a conquista de direitos e para discutir as discriminações e violências morais, físicas e sexuais ainda sofridas pelas mulheres, impedindo que retrocessos ameacem o que já foi alcançado em diversos países”, explica a professora Maria Célia Orlato Selem, mestre em Estudos Feministas pela Universidade de Brasília e doutoranda em História Cultural pela Universidade de Campinas (Unicamp).

assinaturaNo Brasil, as movimentações em prol dos direitos da mulher surgiram em meio aos grupos anarquistas do início do século 20, que buscavam, assim como nos demais países, melhores condições de trabalho e qualidade de vida. A luta feminina ganhou força com o movimento das sufragistas, nas décadas de 1920 e 30, que conseguiram o direito ao voto em 1932, na Constituição promulgada por Getúlio Vargas. A partir dos anos 1970 emergiram no país organizações que passaram a incluir na pauta das discussões a igualdade entre os gêneros, a sexualidade e a saúde da mulher. Em 1982, o feminismo passou a manter um diálogo importante com o Estado, com a criação do Conselho Estadual da Condição Feminina em São Paulo. Mais um entre os problemas vividos pelas mulheres na sociedade é a questão da violência. Embora leis específicas (tais como a “Lei Maria da Penha”) e as Delegacias da Mulher tenham sido criadas no Brasil, ainda são numerosos os casos de agressões no ambiente domiciliar, assédio, estupro, assassinatos e outros. Isso sem falar no monitoramento social constante sobre as atitudes e o corpo da mulher, que são cada vez mais cercados de “regras” e posturas morais que muitas vezes privam os direitos e as liberdades individuais.

Por todos esses motivos, embora o papel da mulher na sociedade venha se tornando cada vez maior e melhor, ainda existem muitos desafios a serem enfrentados. É preciso, pois, combater a cultura machista na sociedade (e isso não significa “combater os homens”!), melhorar o acesso das mulheres a postos de trabalho e cargos elegíveis, promover melhores salários, efetivar o direito da mulher sobre o seu próprio corpo e sobre a sua liberdade individual, além de efetivar a proteção de mulheres ameaçadas em seus cotidianos.

Os desafios são grandes, mas quanto menor for a resistência das pessoas no sentido de questionar ou combater as pautas femininas, mais ampla e melhor será a efetivação de uma sociedade mais igualitária. Trata-se de uma missão a ser concluída por toda a sociedade, tanto pelas mulheres quanto pelos homens.

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