Eduardo Pereira - matutando

Eduardo Pereira

Historiador, jurista e psicanalista em formação.

 

Dia 23 de julho deste ano, um sábado, Cassiano da Mata e seu amigo Patrício, estavam na capital dos baianos, em mais uma das suas andanças, em visita a arquivos públicos, arquivos de jornais e similares, realizando pesquisas para o doutorado da Patrício. Num momento de descanso, caminhavam tranquilamente pelo calçadão da praia de Amaralina para a praia da Pituba.

Cassiano, caminhava um tanto distraído, pensava nas farras que fizera no Bairro da Pituba, sempre na companhia da dona Constância, já Patrício estava concentrado em todos os detalhes, nas similaridades do tão majestoso bairro, carrões caríssimos e prédios com apartamento suntuosíssimos e também caríssimos.

O contras tesficava mais por conta das singelas canoas encalhadas na areia da praia e os esgotos jorrando em plena areia. Aqui também tem canoas iguais aquelas do Sr. Barachísio de Fazenda Velha? Murmurava calado Patrício. Em dado momento, Cassiano da Mata percebe seu amigo de caminhada quase desfalecendo. Um susto! Que foi isso camarada? (é assim que se tratam) e o amparou. Patrício não conseguia falar, Cassiano de imediato comprou um copo d’água e depois de bebê-lo, Patrício exclama: “Camarada você não viu aquilo ali”? E apontou para um barraco improvisado com lonas pretas (daquelas usadas na região para secar cravo).

Somente a essa altura. Cassiano da Mata que viajava em seus pensamentos concupiscente com dona Constância, pela capital baiana, “caiu na real” e percebeu o deplorável quadro nas proximidades de um dos esgotos que jorravam na praia da Pituba, frente à esplêndida Praça que leva o nome da Nossa Senhora da Luz.

Só então, Cassiano pode enxergar um improvisado barraco coberto com lonas e cercado com papelões, homens, jovens, mulheres, crianças e dois cachorros,um fogão a lenha improvisado, um artefato em madeira, usado para enrolar fio elétrico servia de mesa, baldes de tintas usadas em construção,  lenha improvisada com resto de construções, fogo aceso.

Começou a chover e nossos personagens procuraram abrigarem-se e encontrando um pescador, Cassiano ainda atônito,apontando para a cena o indaga: “Meu amigo o que é aquilo al? São duas famílias morando ao desabrigo, respondeu o gentil pescador. São famílias negras, disse patrício um tanto banzeiro.

De fato, a cidade de Salvador – BA, exibe os seus contrastes, notadamente devido à exploração econômica e a um racismo enraizado. Como essas mazelas socioeconômicas se repetem no decorrer dos séculos, muitas das vezes são “naturalizados” aos olhos de uns e invisíveis a outros olhares. Ou nas palavras do Dalai Lama: “o alheamento em ralação ao outro”, ou ainda nas palavras de Márcia Tiburi: “negar a alteridade”.

Nossos personagens vão descansar do susto e tomam água de coco sentados cada qual em uma cadeira que alugaram na referida paria. Passado o sobressalto, Cassiano da Mata lembra-se de um primo distante bem situado no governo e faz uma ligação para o celular desse primo. Indignado com a cena que acabara de presenciar que, segundo Cassiano, não é somente umdescaso social, mas acima de tudo um mais um episódio fruto do racismo reinante na capital e em outras tantas cidades do país. No que seu primo, o alenta: “Calma da Mata, racismo com certeza não é; essa cidade é miscigenada e hospitaleira”. Mas faça alguma coisa para tirar de imediato dessa situação escabrosa essas duas famílias, replica Cassiano. O “primo figurão”, com ar de superioridade, responde: “estou te dizendo que tenha calma, eu não posso fazer nada, pois essa gente gosta de viver desse jeito” e desligou o telefone, como se diz “na cara” de Cassiano da Mata.

Cassiano da Mata, ali mesmo sentado na cadeira de praia que alugara a pouco, pede duas doses de cachaça, uma para si e outra para seu fiel companheiro, Patrício. Mais uma e mais outra… Patrício calado a resmungar das injustiças sociais e Cassiano viajando em seus pensamentos “cabritista”, com dona constância a rebolar ao som da suamúsica preferida “LepoLepo”.

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